Durante a minha adolescência,
vivi um período que chamo de “o pesadelo”, que logo foi seguido por uma época
que me deu muita felicidade. O pesadelo começou quando meus pais morreram. Eu
tinha uns 12 anos e Basil, meu irmão, já tinham uns 20. Tivemos que viver por
nós mesmos. Ou melhor, eu passei a depender dele, já que nossos avós já tinham
morrido e nossos tios não eram as pessoas mais indicadas para ficar comigo.
Como ele já tinha um emprego muito bom numa multinacional, nosso padrão de vida
não diminuiu tão drasticamente. É óbvio que não tínhamos muitos luxos, mas
conseguíamos nos virar.
Continuamos vivendo no Líbano
por mais quatro anos, até ele ser transferido para uma cidade brasileira. Por
sorte, a empresa, antes de nos enviar para lá, nos ofereceu um curso de
português, para que pudéssemos ter pelo menos uma base. O curso não foi uma
solução mágica, mas me ajudou muito pra poder me localizar nos primeiros dias.
Quando comecei a conviver com
meus novos vizinhos, cometi muitas gafes, já que a cultura ainda era muito
diferente. Por exemplo: eu sempre pulava quando ouvia um estalo, por menor que
fosse, já que em Beirute esses mesmos barulhos significavam que eu teria que
fugir.
No primeiro dia de aula, eu
realmente fui à escola sem vontade. Não queria ir, já que eu tinha sentido só
pelos vizinhos no prédio em que eu estava morando que eu seria alvo fácil por
parecer estar sempre doente e seria motivo de chacota por não conseguir me
misturar. Mas eu fui. Nervoso, eu olhava para todos os lados, tentando captar
todo o ambiente.
Lembro-me de estranhar o fato de
ser uma escola mista, já que, mesmo não sendo mulçumano, tive que estudar em
escolas somente para garotos. No que eu olhava ao meu redor, eu percebi que
praticamente todos os alunos se abraçavam falsamente e os grupos maiores eram
os mesmos em que se ouviam os gritinhos falsos e se viam as pessoas mais
bonitas, e provavelmente as mais ricas também.
Pouco depois de entrar no prédio
da escola, uma menina encostou no meu ombro. Como as memórias de Beirute ainda
eram muito frescas na minha mente, quase pulei de susto e comecei a xingar em
árabe. Quando parei pra perceber quem era, vi que era uma menina branca, muito
magra, meio sardenta e de cabelos pretos.
“Desculpa, não quis te assustar.”
Ela falou “Meu nome é Melissa. Bem vindo a…”
“Sou William.” Cortei. Naquela
época, eu tinha a filosofia de ser grosso com quem me desse um susto “Não
precisa me dar as boas vindas. Eu já percebi que nessa escola é preciso ser
bonito e fútil pra fazer amigos.” respondi de maneira seca.
“Bem, não é bem assim. Eu detesto
essa galera” ela apontou pro lado de fora “E eu quero ser sua amiga, e não acho
que você seja fútil, mas te achei bonito.”
Senti que tinha um leve interesse
em sua voz.
“Não quero uma amizade por pena.
Já tive que me mudar por causa disso. Não quero repetir a minha vida da outra
cidade aqui.”
O que
não era inteiramente verdade. Eu sofri preconceito em Beirute por não ser
mulçumano, mas não vivi na base de amizades por pena. Naquela época, eu era
realmente muito desconfiado das pessoas, principalmente quando eu considerava
que eu estava em desvantagem. Como naquela cidade eu era totalmente novo e não
tinha uma comunidade árabe, mesmo que mulçumana, pra me apoiar, eu considerava
qualquer interação com estranhos como uma “ameaça”.
Entrei
na secretaria, para pegar o horário e tentar me manter discreto, sem chamar
atenção.
“William,
não quero ser sua amiga por pena. Falando sério. Eu não tenho amigos nessa
escola. Eu sei como é ruim não ter amigos. Estudo aqui desde que eu tinha 8
anos de idade. Se fosse por pena, você acha que eu te ofereceria amizade? Você
tem que me conhecer. Odeio amizade por pena.”
“Ok, Melissa. Entendi o recado.
Vamos andando que eu ainda tenho que pegar meu horário e descobrir em que merda
de sala eu estou.”
Seguimos no corredor até entrar
na coordenação. As funcionárias, assim que avistaram Melissa começaram a fazer
perguntas sobre as férias dela e outras coisas mais, como se não tivessem me
visto por ali.
“Melissinha, meu amor, vai
querer alguma coisa? Ainda tem o seu horário?” perguntou a funcionária mais
velha.
“Ainda tenho meu horário. Minha
mãe não me deixaria perder.” Melissa respondeu com um tanto de mau humor “Só to
acompanhando o gringo, mesmo.”
Naquele momento percebi que tínhamos
algo em comum: nossa falta de vontade por estar ali. E só naquele momento é que
as funcionárias pareceram reparar na minha presença.
“Qual seu nome, rapaz?”
perguntou a mesma funcionária que tinha falado com Melissa.
“William Fatih Ajram.”
Ela procurou meu nome num
arquivo e, assim que achou, retirou uma pasta. Colocou a pasta sobre o balcão e
retirou uma folha de papel e pediu para que eu assinasse na linha pontilhada. Coloquei
a assinatura que eu usava no Líbano e vi a mulher torcer o nariz, mas sem fazer
um comentário. Só assim ela entregou meu horário. Agradeci e saí da sala.
Eu e Melissa fomos para o pátio
e ficamos por lá para esperar o sinal que indica o início das aulas.
“Qual a tua sala?” ela perguntou.
“607. E que fique claro: de
onde eu venho, aquela cena” apontei pra um grupo de meninas se abraçando
falsamente “é motivo de vergonha. Já to vendo que vou me dar mal com esse
povo.”
“Ainda te restam dúvidas? Eu
estudo nessa merda desde os meus 8 anos de idade, nunca fiz um amigo e já saí
na porrada com pelo menos três garotas dessas. De onde você veio, hein? Por que
você só fala que ‘de onde eu venho isso’ ‘de onde eu venho aquilo’…”
“Você não quer saber de
verdade. Muita gente me abandonou por eu ser de onde eu venho.”
“Desculpa, mas eu não me
enquadro nessa lista. Nunca rejeitei ninguém por ser de lugar nenhum. Mas já
rejeitei um bocado de gente pela personalidade.”
“Beirute. Não espalha tá? Já é
ruim o suficiente ter fugido de babacas preconceituosos por lá pra ter que
fugir daqui por causa desses idiotas.”
“Pra quem eu iria espalhar? Pra
minha mão?” ela levantou a mão e encarou-a “É, acho que não. Como eu disse, eu
não tenho amigos por aqui. Eu não teria a quem contar isso.”
Ela realmente pareceu
interessada em manter uma amizade comigo. Com os dias que se passaram, percebi
que ela era uma pessoa confiável e que eu realmente poderia contar, já que
ninguém parecia se importar de verdade comigo.
Nas semanas seguintes, mantive
a minha tática de discrição. Quando os professores me pediam para me apresentar
para a turma, eu inventava uma desculpa qualquer pra evitar ser o centro das
atenções. Por ter evitado ser foco de conversas, eu passei a prestar mais
atenção em Melissa. Naquela época, eu não sabia o que eu representava pra ela,
mas comecei a ter muito claro na minha cabeça o que ela me representava.
Durante essas semanas iniciais,
passamos a contar as nossas vidas um ao outro. O que mais me impressionou sobre
Melissa, na época, foi o fato dela viver num ambiente em que a mãe sofria maus
tratos e conseguir manter a sanidade. Mais tarde é que eu fui perceber que isso
só demonstrava o quão forte ela é.
Quanto mais eu ia descobrindo
sobre a vida dela, mais eu me apaixonava por ela. Em um dado momento, ela
comentou que tocava piano, mas que tinha meio que sucateado essa habilidade, já
que tinha que cuidar da casa no lugar da mãe, se preocupar com a escola e tudo
mais. Fiquei meio encabulado em pedir que ela tocasse, já que ela sempre se
mostrava meio ocupada depois das aulas.
Não sei se ela se lembra, mas
antes de começarmos a namorar, eu a chamei pra ir passar a tarde em minha casa.
Como uma das regras que meu irmão me impôs naquela época era que quando eu
chamasse alguém, independente de quem fosse, ele teria que estar em casa.
Daquela vez não seria diferente. Assim que cheguei em casa, com Melissa em meu
encalço, Basil me parou na porta.
“Ela não está usando o hidjab.”
Ele falou.
“Basil, não estamos no Líbano.
E ela não é mulçumana. Já falamos sobre isso.” Falei.
Ele me cedeu passagem, mas
bloqueou a passagem de Melissa.
“Qual o seu nome, menina?” ele perguntou.
“Melissa Andrade. O senhor deve
ser Basil, o irmão do William.” Ela falou estendendo a mão esquerda para um
aperto.
Com um ato de clara rudeza, Basil
deixou a mão dela ali. Não que eu realmente esperasse que ele fosse apertar a
mão esquerda dela.
“Cadê o véu?”
“Basil, meu senhor, deixe a
menina entrar. Nós já combinamos que ela não teria que usar nenhuma porcaria de
véu.” Eu já começava a me estressar e deixei claro.
“Sem o véu ela não entra,
Fatih. Não adianta.”
“Ela vai entrar sem o véu, seu
imbecil. A gente combinou que seria assim. Não volte atrás com a sua palavra.”
Dali a um segundo, um sorriso
palhaço surgiu no rosto do meu irmão e ele começou a gargalhar. Encontrei o
olhar confuso de Melissa. Aquela era mais uma das pegadinhas sem graça do
Basil.
“Melissa, pode entrar. Isso foi
uma brincadeira. Só tava testando os limites do esquentadinho aqui.” Falou
Basil “É que ele andou falando um pouco demais sobre você, então decidi fazer
um teste com ele.”
Naquela época eu realmente era
meio estourado, mas tinha aprendido a me conter um pouco. Eu e Melissa passamos
a tarde fazendo besteira. Ensinei a ela algumas palavras e expressões em árabe,
além de apresentar a ela a baklawa, um doce que eu particularmente adoro.
Alguns dias depois, eu
perguntei se ela ainda praticava o piano. Ela disse que sim, mas estranhou
quando eu pedi pra ouvi-la tocar. Passamos o dia ouvindo gracinhas de colegas,
principalmente ela, mas ela não parecia se importar.
Na casa dela, tive uma bela de
uma surpresa. Ela sempre me dizia que não tocava muito bem e tudo mais, mas ela
tocou de um jeito maravilhoso pra quem ainda estava tocando pelas partituras e
tinha começado no ano anterior. Perguntei se ela toparia formar uma dupla
comigo. Ela disse que aceitava, mas que seria temporário. Pra mim, por menos
tempo que durasse, seria o tempo mais fantástico que eu viveria.
Agradeci repetidamente por ela
ter aceitado a minha proposta. Ela disse que não era nada, que a deixaria até
um pouco mais feliz. De repente, Mel sugeriu que fôssemos na padaria comprar
doces. Aceitei. Como o tempo estava nublado, fomos equipados com casacos de
moletom. Na padaria, compramos alguns doces que eu ainda estava me acostumando.
Quando estávamos voltando, começou a chover.
Por causa da chuva, começamos a
correr e pela situação, começamos a rir. Assim que chegamos na casa dela, ela
me ofereceu roupas secas. Não sei o que me deu, mas comecei a rir, já que
parecia meio estranho ela me oferecer roupas. Parei quando percebi que ela
estava falando sério. Aceitei e fui no banheiro pra poder tirar as roupas
molhadas e tomar um banho rápido.
“Melissa, você tem algum
apelido que você goste de ser chamada?” perguntei através da porta.
“Bem, a louca da minha mãe me
chama de Missy, mas não sou muito fã desse apelido. Prefiro ser chamada de Mel,
mesmo.” Ela respondeu me entregando roupas secas e pegando as molhadas.
Vesti a calça que ela me
entregou e saí do banheiro. Com a água escorrendo do cabelo pelas costas,
fiquei no corredor, esperando que Mel aparecesse. Não sei por que, mas quando
ela apareceu, tive que fazer força pra me controlar e não agarrar ela. Ela se
aproximou de mim e ajeitou meu cabelo.
Com a respiração ofegante, abracei-a
pela cintura e beijei-a de um jeito que eu não queria que ela esquecesse. E ela
correspondeu. Fui baixando a mão e ela não se afastou. Comecei a tirar a blusa dela, mas sem deixar
de beijá-la. Aos poucos, já estávamos os dois sem roupa seguindo em direção ao
quarto dela. Não aguentei. Joguei-a na cama e comecei a penetrá-la. Fui
aumentando o ritmo e ficamos assim por alguns minutos até que eu pedi pra que
ela ficasse em cima. Ela aceitou e foi.
Depois de alguns minutos,
quando deu pra perceber que tanto eu quanto ela havíamos chegado ao ápice, ela
me deu um beijo e deitou repousando a cabeça em meu peito. Olhei pra ela com a
consciência de que eu queria passar o resto da minha vida com ela.
“Melissa, você já namorou
antes?” perguntei.
“Bem, não. Nem tive interesse
em ninguém. Aquela escola não oferece muita opção de gente decente. Ou melhor,
você foi a única pessoa decente que apareceu por lá até hoje.”
“Então quer dizer que sou o
primeiro cara pelo qual você se apaixona?”
“Basicamente isso”
“Quer namorar comigo?”
“Você ainda pergunta?” ela
respondeu e me deu um beijo longo.
E voltou a apoiar a cabeça em
meu peito.
“Obrigado por ter aparecido na
minha vida” falei.
Abracei-a no jeito que a
situação permitia e acabamos dormindo ali mesmo. No que pareceu pouco tempo
depois, eu acordo com um grito. Era a mãe da Melissa que tinha acabado de
chegar com o padrasto dela.
“Mãe, eu posso explicar.” Melissa
saltou pra explicar, mas a mãe dela mal deu ouvidos.
A mãe de Melissa começou a gritar
com ela, reclamando que Melissa não deveria ter dormido com um desconhecido,
claramente se referindo a mim. Melissa gritou de volta pra ela dizendo que eu
não era um desconhecido, mas o namorado dela, e mais um monte de coisas que eu
não consegui entender muito bem.
Logo depois de Melissa terminar
de gritar com a mãe dela, a porta foi batida. Percebi imediatamente que Melissa
se arrependeu de ter gritado daquele jeito com a mãe. Abracei-a e ofereci que
eu fosse falar com a mãe dela sobre o ocorrido. Melissa disse que eu poderia
ir, mas afirmou que não tinha muita noção de qual seria a reação da mãe dela.
Vesti a calça e a camiseta que
deixei no chão e fui falar com a mãe de Melissa.
“Dona Andrade, vim pedir
desculpas à senhora.” Falei meio nervoso.
“Não precisa me chamar de senhora,
menino. Pode me chamar de Santana. E você não tem pelo que pedir desculpas. Foi
a sua namorada que fez a besteira e eu estou com raiva dela.”
“Santana, mas eu preciso lhe
falar alguma coisa.”
“Pode falar.”
“Eu amo a sua filha como eu nunca
amei ninguém na minha vida. Pretendo fazer tudo o que estiver ao meu alcance
pra deixar ela feliz. E eu entendo que a senhora fique chateada com o que
aconteceu. Não farei nada sem o seu consentimento.”
“William, seu nome, não é?”
assenti com a cabeça “Eu acho ótimo que você se relacione com a minha filha. E,
não sei se ela já lhe contou, mas eu tinha a idade dela quando ela nasceu e eu
não quero que isso se repita com ela. E acho ótimo que você esteja empenhado a
mantê-la feliz, já que sinto que falhei miseravelmente nesse quesito.”
Eu olhei pra mãe de Melissa e
percebi que ela tinha medo que a história se repetisse, que sua filha cometesse
o mesmo erro que ela.
“De onde você é? Melissa e eu não
temos o hábito de conversar, então não tive a oportunidade de ouvir muito a seu
respeito.” Santana perguntou
“Sou libanês. Me mudei por causa
do meu irmão.”
Ela deu um sorriso e fez menção
para que eu saísse do quarto dela. Quando eu estava quase saindo, ela falou:
“Não precisa devolver as roupas
do Daniel.”
Saí do quarto da mãe dela e fui
ao encontro Melissa. Contei, em linhas gerais a minha conversa com Santana e
prometi que tudo daria certo.
Nos dias seguintes, nossos dias
passaram a ser divididos entre as aulas e ensaios. Quase não fazíamos outra
coisa além disso. Nos impomos a meta de passar numa audição. As audições das
quais participamos consistiam em basicamente montar todos os equipamentos,
tocar uma ou duas músicas e ouvir um ‘não’.
A nossa última audição foi meio
esquisita. O teatro estava muito sucateado e cheirava a decadência, mas tinha
toda uma parafernália musical e tecnológica a nossa disposição. Três homens
muito diferentes entre si foram os nossos avaliadores. Eles avisaram a mim e a
Melissa que éramos os únicos candidatos, mas ainda sim seríamos testados.
Eles pediram para que tocássemos
alguma composição nossa. Explicamos que não compúnhamos e eles disseram que
queriam alguma coisa mais próxima de original nosso. Fomos ao palco e tocamos
uma de nossas paródias. No final da música, Melissa saiu correndo, derrubando
algumas lágrimas. Mas antes que eu pudesse ir atrás dela, os homens pediram que
eu fosse lá falar com eles.
Apesar de estar preocupado com
Melissa, fui. Eles disseram que tinham gostado muito da nossa atuação, apesar
de ter coisas a serem melhoradas. Quando começaram a falar sobre a nossa ida a
Londres e coisas como visto e acomodação, Melissa reaparece. Abracei-a assim
que a vi.
“Amor, você ouviu? Vamos pra
Londres!” falei animado. Quando vi que ela não reagia, fiquei desesperado.
“Melissa, você tá bem? Você tá pálida. O que aconteceu?”
Só deu tempo de ela cair de
joelhos e começar a vomitar. Fiquei com medo de alguma coisa pior acontecer. Os
homens garantiram que essa cena não seria levada em conta, já que, como
acreditavam, era apenas nervosismo.
Alguns dias depois embarcamos
em direção a Londres. A cada dia que passava, eu observava que Melissa tinha
enjoos constantes. Logo nos primeiros dias, pensei que fosse por causa da
mudança de alimentação e de clima, mas depois cogitei que ela pudesse estar
grávida. Ela logo descartou a ideia, me dizendo que só tínhamos transado uma
vez.
Alguns dias depois, Melissa
reclamava de cólica, mas disse que não parecia nada que se devesse se importar.
Pouco tempo depois ela começou a sangrar. Liguei pra emergência e quando os
paramédicos chegaram, eles confirmaram as minhas suspeitas sobre a gravidez de
Melissa, mas que não teriam condições de manter a criança.
Comecei a me sentir culpado pelo
que havia acontecido com ela e passei a tomar conta do que eu pudesse para que
Melissa pudesse dar seu melhor. Os meses que se passaram foram de pura ralação.
Conseguimos abrir alguns shows, e até fomos convidados para abrir os shows da
turnê de uma banda mais conhecida. Passamos por várias cidades, como Hamburgo e
Viena. O último show da turnê foi na própria Londres e eu decidi que pediria
Melissa em casamento quando a turnê tivesse acabado.
Como era fim de dezembro, as
pessoas se espremiam dentro dos cafés, bares e restaurantes para ter um pouco
de folga do frio que se instalara no lado de fora. Eu e Melissa fomos a um café
e conseguimos, por sorte, uma mesa perto do aquecedor. Eu estava ansioso, mas
tentei arranjar alguma maneira de puxar o assunto ‘casamento’.
“Amor, queria te contar um pouco
sobre a minha família no Líbano.” Falei.
“Você nunca quis falar sobre
isso... Por que isso agora?”
“Acho que você gostaria de saber.
Bem, minha família era bem-estruturada, quase tradicional. Apesar de eu ter o
Basil como irmão, a minha família sempre me tratou como filho único, o que
chegou a ser meio estranho. Apesar de a gente viver num país árabe, ninguém na
minha família era muçulmano. Quando meus pais morreram, eu tinha uns 12 anos e
acabei ficando sob a guarda de Basil. Como é a sua?”
“Minha mãe engravidou de mim com
uns 16 anos e o namorado dela fugiu. Ela nunca me disse nada sobre ele, nem o
nome. Minha mãe teve muitos namorados durante os anos, mas acho que eu os
espantei.” Ela deu um riso sem graça “Quando eu tinha uns 14 anos, ela começou
a namorar com Daniel. Nunca gostei dele, já que ele vivia bêbado. Até os meus
10 anos eu tinha a presença da minha avó materna, que era quem pagava a
mensalidade da escola. Gostava muito dela.”
“Como você queria construir a sua
família?” soltei.
“Nem sei.” Duvidei “Falando
sério. Só sei que eu não quero seguir o mesmo caminho da minha mãe, já que eu
sei que a vida dela é um pé no saco.”
Tirei a caixa com a aliança do bolso
e botei em cima da mesa, mas não tirei a mão.
“Quando eu tirar a minha mão de
cima, quero que você responda a pergunta que eu não vou precisar fazer, eu
acho.”
Assim que eu tirei a mão de cima
da caixa, dava pra saber mais ou menos o que se passava na cabeça dela.
“Bill, não sei o que te dizer...”
ela começou com um fiapo de voz e com lágrimas silenciosas escorrendo. Ela
enxugou as lágrimas com a palma da mão “Esquece. Eu aceito.”
Não consegui conter um sorriso.
Dali a alguns meses nos casamos. O dia do nosso casamento foi um dos melhores
dias da minha vida. Não foi uma festa grande. Melissa estava maravilhosa. Ela
usava um vestido simples, mas que pra mim fazia ela parecer 10 vezes mais
linda.
Não tivemos lua-de-mel, mas nem
eu nem Melissa ligamos. Pouco tempo depois de nos casarmos, a gravadora avisou
que se não fizéssemos faculdade, seríamos demitidos. Como não tínhamos
concluído o ensino médio, acabamos frequentando uma escola tradicional perto de
onde estudávamos. Melissa decidiu que participaria do coral, o que acabou
significando uma hora a mais na escola.
Depois de concluirmos o ensino
médio, fizemos faculdade de coisas pouco comuns. Melissa fez fotografia e eu
fiz o curso de pequena duração de música. Quando voltamos a trabalhar com a
gravadora, não passávamos de mais uma dupla, portanto, nada de diferente a
oferecer. Fomos demitidos, como já era de se esperar, e tentamos arranjar
emprego com o que tínhamos. Melissa conseguiu montar um estúdio de fotografia e
eu passei a trabalhar como cantor num pub perto de casa.
O que Melissa não sabe, de jeito
nenhum é que a mãe dela ligou poucos meses depois de conseguirmos nossos
empregos. Ela tinha saído para pegar um exame e eu tinha ficado em casa,
tentando compor alguma coisa quando o telefone tocou.
“Alô? Residência dos Ajram.”
Melissa odiava quando eu atendia o telefone assim, por isso eu só atendia assim
quando ela não estivesse em casa
“William?” perguntou Santana com
uma voz meio fraca
“Santana! Que bom que você ligou.
Mas é uma pena Melissa não estar em casa pra falar com a senhora.”
“É bom que ela não esteja.
Desculpa desapontá-lo. Mas é que eu preferia falar com você. Não sei se eu
aguentaria falar com Melissa.”
“Tudo bem. Pode falar.”
“William, eu queria saber o que
anda acontecendo por aí com vocês.”
“Bem, nada de grave.” Fiquei sem
coragem de contar sobre o aborto “Melissa e eu andamos meio ocupados com as
coisas da gravadora, mas não conseguimos muitas coisas.”
Ela soltou uma risadinha leve
“Nesse caso, se fala ‘nada de especial’, não ‘nada de grave’. Mas eu não estava
me referindo a esse tipo de coisa. Eu estava me referindo a comportamento,
essas coisas.”
“Melissa está indo bem. Não fez
nenhuma besteira. A não ser que a senhora conte o nosso casamento como uma.”
“Não, não. Acho até bom que vocês
tenham se casado. Acho que eu não suportaria a ideia de Melissa repetindo os
meus passos. Só te faço um pedido que vem junto com um conselho. Melissa é
muito firme nas ideias dela. E ela, até a morte da minha mãe, sonhava alto.
Depois da morte da minha mãe, eu meio que perdi Melissa também. Quando você
apareceu por aqui, Melissa voltou a ser um pouco do que era antes. Por favor,
mantenha essa Melissa viva. Mas não deixe que ela se machuque com os próprios
sonhos.”
“Não sei se a senhora se lembra
de quando eu fui à sua casa quando eu e Melissa começamos a namorar. Quando eu
falei com a senhora.”
“Lembro sim. Não tinha como me
esquecer.”
“Meu sentimento em relação à
Melissa não mudou muito em relação ao que era. A única coisa que mudou
realmente foi a minha vontade de protegê-la.”
“Tem alguma coisa que você não
está me contando, William.”
Respirei fundo. Eu não queria ser
a pessoa a dar a notícia a Santana.
“Poucas semanas depois que
chegamos em Londres aconteceu um acidente.” Comecei
“Não aconteceu nada de grave com
Melissa, aconteceu?”
“Não com ela especificamente. Não
foi um acidente de carro nem nada desse tipo. Melissa engravidou, mas abortou.
Juro que não foi nada planejado, nem que tínhamos previsto.”
“Como assim Melissa estava
grávida e abortou? Explique melhor.”
“Quando eu estive em sua casa, eu
e Melissa realmente dormimos juntos. Daquele dia, ela engravidou. Juro que não
era a minha intensão. Mas aconteceu. Os paramédicos que atenderam Melissa aqui
em Londres disseram que ela teve uma má formação na placenta e a dieta dela não
levava em conta o que o bebê precisava.”
“Então foi isso?” Santana parecia
mais calma com a ideia de um aborto espontâneo. Ao fundo eu ouvi a voz do
padrasto de Melissa, Daniel, falar alguma coisa ininteligível, mas dava pra
perceber que não era nada agradável “Desculpa, William. Agora vou ter que desligar.
Espero que vocês realmente tenham uma boa vida juntos e cuidem-se.”
Ela desligou antes que eu pudesse
falar mais alguma coisa. Decidi não comentar com Melissa sobre o telefonema da
mãe dela porque eu sabia o efeito que isso teria nela. Melissa, com toda a
certeza, começaria a enumerar as besteiras cometidas pela mãe e ligaria de
volta só para ter certeza de que a mãe teria ouvido. E eu também sabia que isso
não seria bom para nenhuma das duas.
Pouco depois de desligar o
telefone, a dor de cabeça que eu tinha desde que tinha acordado piorou. Piorou
tão drasticamente que eu não conseguia aguentar. Conscientemente, não me lembro
do que aconteceu entre a minha queda e a chegada ao hospital, mas pelo que me
foi dito, Melissa chegou em casa e me viu urrando de dor e chamou a emergência.
Quando acordei, eu estava num
quarto de hospital. Do meu lado, uma enfermeira ajeitava a bolsa de soro no
poste. Olhei ao redor e não vi nem sombra de Melissa.
“Cadê a minha mulher?” perguntei
à enfermeira.
“Ela está na sala de espera. E só
poderá vir quando o médico autorizar.” Ela respondeu e saiu.
Poucos segundos depois um médico
entra no quarto.
“Como se sente?” ele pergunta
“Bem.”
“Vou fazer algumas perguntas, mas
são só pra checar se está tudo certo com você.”
“O que eu tenho?”
“Você foi diagnosticado com um
tumor no cérebro. Ele é benigno, mas está numa área que torna a retirada
impossível. Por isso as perguntas. Posso começar?”
“Claro.”
“Seu nome completo.”
“William Fatih Ajram”
“Algum irmão ou irmã? Se sim,
qual o nome completo dele ou dela?”
“Tenho um irmão. Basil Ali Ajram.”
“Casado, solteiro ou namorando?”
“Casado com Melissa Andrade
Ajram.”
“Você sabe dizer em que cidade
você está?”
“Londres, Inglaterra.”
“Ótimo. Suas respostas indicam
que você não teve nenhuma perda de memória. Daqui a pouco eu volto pra fazer
uma checagem mais completa.”
E ele saiu. Apertei a campainha
das enfermeiras e, em pouco tempo, uma veio me atender.
“Eu queria ver a minha mulher.”
“Vou falar com o médico e depois
eu volto.”
“Obrigado.”
Não muito tempo depois, Melissa
entra no quarto. Ela entrou e se sentou na beirada da cama com cuidado.
“Amor, tenho uma novidade.” Ela
começou a falar, mexendo no meu cabelo.
“Diga.”
Ela pegou a minha mão e pôs na
barriga dela. Não consegui conter um sorriso. Um filho. Pra mim, aquilo era
maravilhoso.
“Desde quando você sabe? Digo,
isso é maravilhoso!” não me contive
“Soube hoje. Mas já suspeitava
há algumas semanas. To quase no terceiro mês.”
“Melissa, você não sabe o quanto
isso significa pra mim.”
“Bill, calma.”
“Pra que calma, Melissa? Nossa
filha vai ser igual à mãe. E, no que depender de mim, ela vai ter tudo o que
merece.”
“Você já sabe que vai ser uma
menina?”
“Claro que vai ser uma menina.”
Admito, com a notícia que Melissa
me deu, eu quase que esquecia do tumor e saía pela rua cantando de felicidade.
Quando recebi alta do hospital, liguei pro meu irmão pra contar que eu seria
pai.
“Ali, eu vou ser pai!”
“Como assim, você vai ser pai?
Quem tava no hospital era você, não Melissa.”
“O que aconteceu comigo não tem
grande importância agora. O que importa é que eu vou ser pai.”
“Sinceramente, parabéns, Fatih.
Sem querer estragar a sua alegria, mas eu quero saber o que você tem. Você deu
um susto sério tanto em mim quanto em Melissa.”
“Basil, é sério. Eu não quero
falar sobre isso.”
“Será que eu vou ter que
descobrir tudo o que acontece com o meu irmão pela mulher dele?”
Era incrível como Basil conseguia
o que queria com um truque de palavras. Obviamente, meu humor murchou.
“Tá bom. Você venceu. Fui diagnosticado
com um tumor benigno no cérebro. O médico disse que não tem como remover, mas
tem como controlar. Vou ficar recebendo radiação pra ver se reverte ou pelo
menos se controla.”
“Agora eu vou ter que ir. Se
cuida, Fatih.”
Quando desliguei o telefone,
fiquei intrigado com o fato do meu irmão ficar muito preocupado com qual teria
sido o meu diagnóstico e, de repente, ter dado uma desculpa qualquer para
desligar. Alguns dias depois, quando saímos juntos para ver uma coisa qualquer
que Melissa tinha pedido que eu visse enquanto ela tinha uma sessão de fotos,
ele me pareceu nervoso. No dia, eu e Melissa já sabíamos que seria um menino,
mas ainda não havíamos escolhido o nome.
“Ali, você não está bem. Pode me
falar.” Comecei
“Não é nada, Fatih. Eu to bem. Quem
deveria estar preocupado era você. Vai ter um filho e tá com esse troço.”
“Ali, me escuta. Eu sei me
cuidar. Eu não sou mais aquele pirralho de doze anos que você teve que tomar
conta quando nossos pais morreram. Já to casado e pra ter um filho. Acho que já
passou do tempo de você começar a confiar em mim, não acha?”
“Ok, ok. To preocupado com a sua
doença. Além de não achar justa toda essa situação.”
“Como assim?”
“Você mal casou com a Melissa,
acaba de descobrir que ela tá grávida e ainda por cima tá com um câncer. Quem
deveria estar com esse câncer sou eu, não você.”
“Ali, antes de sair falando
merda, você deveria se ouvir mais. Nem eu nem você temos culpa desse maldito
câncer. E, não sei se você se lembra, mas esse câncer é benigno. Se eu me
tratar direito, eu posso estender a minha vida por um bom tempo. Quem sabe até
mais uns dez anos.” Forcei uma risada “Imagina, eu, daqui a uns quatro anos,
olhando o meu filho andar na primeira bicicleta dele.”
“Não delira, Fatih.” Meu irmão
não tirava a carranca do rosto “Isso é vida real. Não existe mágica. Não que eu
não queira que você veja seu filho dar os primeiros passos e tudo mais, mas
acho que o que você tá precisando é de uma cura mágica ou de um milagre.”
“Basil Ali Ajram. Não estamos num
subúrbio libanês, entregues à nossa própria sorte. Estamos na Inglaterra. Aqui
eu tenho condições de me tratar direito como qualquer pessoa normal. E, tá
certo, eu posso não durar dez anos, mas eu posso garantir que Melissa sabe
lutar bem o suficiente pra garantir qualquer coisa que o nosso filho precise.”
“Tem certeza, pirralho?”
“Vamos fazer um acordo? Como eu
sei que você não vai desistir nem tão cedo, vamos lá. Se eu morrer logo, ou
morra a qualquer momento, você vai cuidar de Melissa e do meu filho em tudo que
eles precisarem. Combinado?”
“Como se eu fosse deixar a minha
querida cunhada e meu único sobrinho na mão. Por sinal, vocês já escolheram o
nome do menino?”
“Ainda não. Melissa quer escolher
o nome, mas não se decide entre Arthur e Gregory. Um dia ela diz que vai ser
Arthur, no dia seguinte diz que vai ser Gregory.” ri
Naquela época, eu ainda me
surpreendia com algumas atitudes simples que Melissa tomava, assim como o meu
irmão. Mas eu sentia que, independente do nome que o meu filho tivesse, ele
teria total apoio tanto do meu irmão, quanto de Melissa. Durante toda a
gravidez, fiz questão de ajudar Melissa no que fosse necessário e, obviamente,
tomava todos os remédios que o médico mandava.
No dia que o Gregory nasceu, eu
me senti a pessoa mais feliz do mundo. Eu e Melissa íamos fazer um passeio
leve, pra respeitar a condição dela. Tomamos café-da-manhã numa padaria perto
de casa e, antes de realmente sair, Melissa se lembrou que tinha deixado a
bolsa em casa e que queria pegar. Assim que pisamos em casa, a bolsa estourou.
Fomos correndo pro hospital. Quando vi, pela primeira vez, o rosto do meu
filho, acho que entendi porque os pais babam tanto por seus filhos.
Ajudei Melissa a cuidar do Greg
em tudo que era possível. Eu sabia que Melissa ficava preocupada com toda a
situação e eu fazia de tudo pra que ela visse que não tinha necessidade de
tanta preocupação.
Antes do primeiro aniversário do
Greg, Melissa recebeu a notícia de que a mãe dela tinha morrido. Lembro que na
hora que o telefone tocou, eu estava no quarto, compondo uma música qualquer
que o pub tinha me pedido. Melissa ia sair com o Greg, mas acabou atendendo o
telefone. Como ela atendeu na sala, eu não ouvi o que dizia. Alguns minutos
depois, ouvi o choro dela.
Cheguei na sala pra ver Melissa
toda encolhida ao lado do telefone chorando. Me doeu muito ver aquela situação.
Abracei ela.
“Mel, meu amor,
o que aconteceu?” perguntei
“Minha mãe...”
foi tudo o que ela conseguiu falar.
Entendi toda a tristeza dela e a
abracei mais forte. Eu sabia que, por mais que ela detestasse admitir, ela amava
Santana. Prometi que pagaria a ida dela pro Brasil pra se despedir da mãe e que
ficaria cuidando do Greg enquanto ela estivesse fora. Ela passou uma semana por
lá e depois voltou.
Quando o Greg fez um ano, fiquei
feliz por dois motivos. Por ter conseguido aguentar a doença por tempo
suficiente pra comemorar um aniversário dele e por ele me lembrar, quase o
tempo todo, de que eu não vou deixar a Melissa sozinha.
Poucos meses depois do
aniversário do Greg, senti uma dor pior do que em qualquer momento da doença.
Temi que aquele fosse ser meu último momento. Ali, me contorcendo no chão de
casa, sozinho. Por sorte, Melissa chegou em casa a tempo de ligar para a
emergência.
Fiquei na UTI, recebendo visitas
alternadas do meu irmão e da Mel. Durante uma visita da Mel, eu me sentia fraco,
mas melhor. Ela estava com o Greg nos braços. Em um momento, ele começou a se
balançar violentamente nos braços dela, como quem quisesse sair dali. Fiz
menção para que Mel o colocasse ao meu lado na cama. O jeito que a Mel ficou
olhando pra mim e pro Greg, parecia que iria chorar.
“Mel, tira uma foto. Só pro nosso
pequeno saber quem é o pai.” Falei
Ela tirou a foto. Pouco tempo
depois, Greg falou com aquela voz típica de criança um sonoro ‘eu te amo’ pra
mim. Acho que assim, qualquer um pode ficar em paz.
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