Tuesday, February 5, 2013

William POV (finalmente)


Durante a minha adolescência, vivi um período que chamo de “o pesadelo”, que logo foi seguido por uma época que me deu muita felicidade. O pesadelo começou quando meus pais morreram. Eu tinha uns 12 anos e Basil, meu irmão, já tinham uns 20. Tivemos que viver por nós mesmos. Ou melhor, eu passei a depender dele, já que nossos avós já tinham morrido e nossos tios não eram as pessoas mais indicadas para ficar comigo. Como ele já tinha um emprego muito bom numa multinacional, nosso padrão de vida não diminuiu tão drasticamente. É óbvio que não tínhamos muitos luxos, mas conseguíamos nos virar.
Continuamos vivendo no Líbano por mais quatro anos, até ele ser transferido para uma cidade brasileira. Por sorte, a empresa, antes de nos enviar para lá, nos ofereceu um curso de português, para que pudéssemos ter pelo menos uma base. O curso não foi uma solução mágica, mas me ajudou muito pra poder me localizar nos primeiros dias.
Quando comecei a conviver com meus novos vizinhos, cometi muitas gafes, já que a cultura ainda era muito diferente. Por exemplo: eu sempre pulava quando ouvia um estalo, por menor que fosse, já que em Beirute esses mesmos barulhos significavam que eu teria que fugir.
No primeiro dia de aula, eu realmente fui à escola sem vontade. Não queria ir, já que eu tinha sentido só pelos vizinhos no prédio em que eu estava morando que eu seria alvo fácil por parecer estar sempre doente e seria motivo de chacota por não conseguir me misturar. Mas eu fui. Nervoso, eu olhava para todos os lados, tentando captar todo o ambiente.
Lembro-me de estranhar o fato de ser uma escola mista, já que, mesmo não sendo mulçumano, tive que estudar em escolas somente para garotos. No que eu olhava ao meu redor, eu percebi que praticamente todos os alunos se abraçavam falsamente e os grupos maiores eram os mesmos em que se ouviam os gritinhos falsos e se viam as pessoas mais bonitas, e provavelmente as mais ricas também.
Pouco depois de entrar no prédio da escola, uma menina encostou no meu ombro. Como as memórias de Beirute ainda eram muito frescas na minha mente, quase pulei de susto e comecei a xingar em árabe. Quando parei pra perceber quem era, vi que era uma menina branca, muito magra, meio sardenta e de cabelos pretos.
“Desculpa, não quis te assustar.” Ela falou “Meu nome é Melissa. Bem vindo a…”
“Sou William.” Cortei. Naquela época, eu tinha a filosofia de ser grosso com quem me desse um susto “Não precisa me dar as boas vindas. Eu já percebi que nessa escola é preciso ser bonito e fútil pra fazer amigos.” respondi de maneira seca.
“Bem, não é bem assim. Eu detesto essa galera” ela apontou pro lado de fora “E eu quero ser sua amiga, e não acho que você seja fútil, mas te achei bonito.”
Senti que tinha um leve interesse em sua voz.
“Não quero uma amizade por pena. Já tive que me mudar por causa disso. Não quero repetir a minha vida da outra cidade aqui.”
                O que não era inteiramente verdade. Eu sofri preconceito em Beirute por não ser mulçumano, mas não vivi na base de amizades por pena. Naquela época, eu era realmente muito desconfiado das pessoas, principalmente quando eu considerava que eu estava em desvantagem. Como naquela cidade eu era totalmente novo e não tinha uma comunidade árabe, mesmo que mulçumana, pra me apoiar, eu considerava qualquer interação com estranhos como uma “ameaça”.
                Entrei na secretaria, para pegar o horário e tentar me manter discreto, sem chamar atenção.
                “William, não quero ser sua amiga por pena. Falando sério. Eu não tenho amigos nessa escola. Eu sei como é ruim não ter amigos. Estudo aqui desde que eu tinha 8 anos de idade. Se fosse por pena, você acha que eu te ofereceria amizade? Você tem que me conhecer. Odeio amizade por pena.”
“Ok, Melissa. Entendi o recado. Vamos andando que eu ainda tenho que pegar meu horário e descobrir em que merda de sala eu estou.”
Seguimos no corredor até entrar na coordenação. As funcionárias, assim que avistaram Melissa começaram a fazer perguntas sobre as férias dela e outras coisas mais, como se não tivessem me visto por ali.
“Melissinha, meu amor, vai querer alguma coisa? Ainda tem o seu horário?” perguntou a funcionária mais velha.
“Ainda tenho meu horário. Minha mãe não me deixaria perder.” Melissa respondeu com um tanto de mau humor “Só to acompanhando o gringo, mesmo.”
Naquele momento percebi que tínhamos algo em comum: nossa falta de vontade por estar ali. E só naquele momento é que as funcionárias pareceram reparar na minha presença.
“Qual seu nome, rapaz?” perguntou a mesma funcionária que tinha falado com Melissa.
“William Fatih Ajram.”
Ela procurou meu nome num arquivo e, assim que achou, retirou uma pasta. Colocou a pasta sobre o balcão e retirou uma folha de papel e pediu para que eu assinasse na linha pontilhada. Coloquei a assinatura que eu usava no Líbano e vi a mulher torcer o nariz, mas sem fazer um comentário. Só assim ela entregou meu horário. Agradeci e saí da sala.
Eu e Melissa fomos para o pátio e ficamos por lá para esperar o sinal que indica o início das aulas.
“Qual a tua sala?” ela perguntou.
“607. E que fique claro: de onde eu venho, aquela cena” apontei pra um grupo de meninas se abraçando falsamente “é motivo de vergonha. Já to vendo que vou me dar mal com esse povo.”
“Ainda te restam dúvidas? Eu estudo nessa merda desde os meus 8 anos de idade, nunca fiz um amigo e já saí na porrada com pelo menos três garotas dessas. De onde você veio, hein? Por que você só fala que ‘de onde eu venho isso’ ‘de onde eu venho aquilo’…”
“Você não quer saber de verdade. Muita gente me abandonou por eu ser de onde eu venho.”
“Desculpa, mas eu não me enquadro nessa lista. Nunca rejeitei ninguém por ser de lugar nenhum. Mas já rejeitei um bocado de gente pela personalidade.”
“Beirute. Não espalha tá? Já é ruim o suficiente ter fugido de babacas preconceituosos por lá pra ter que fugir daqui por causa desses idiotas.”
“Pra quem eu iria espalhar? Pra minha mão?” ela levantou a mão e encarou-a “É, acho que não. Como eu disse, eu não tenho amigos por aqui. Eu não teria a quem contar isso.”
Ela realmente pareceu interessada em manter uma amizade comigo. Com os dias que se passaram, percebi que ela era uma pessoa confiável e que eu realmente poderia contar, já que ninguém parecia se importar de verdade comigo.
Nas semanas seguintes, mantive a minha tática de discrição. Quando os professores me pediam para me apresentar para a turma, eu inventava uma desculpa qualquer pra evitar ser o centro das atenções. Por ter evitado ser foco de conversas, eu passei a prestar mais atenção em Melissa. Naquela época, eu não sabia o que eu representava pra ela, mas comecei a ter muito claro na minha cabeça o que ela me representava.
Durante essas semanas iniciais, passamos a contar as nossas vidas um ao outro. O que mais me impressionou sobre Melissa, na época, foi o fato dela viver num ambiente em que a mãe sofria maus tratos e conseguir manter a sanidade. Mais tarde é que eu fui perceber que isso só demonstrava o quão forte ela é.
Quanto mais eu ia descobrindo sobre a vida dela, mais eu me apaixonava por ela. Em um dado momento, ela comentou que tocava piano, mas que tinha meio que sucateado essa habilidade, já que tinha que cuidar da casa no lugar da mãe, se preocupar com a escola e tudo mais. Fiquei meio encabulado em pedir que ela tocasse, já que ela sempre se mostrava meio ocupada depois das aulas.
Não sei se ela se lembra, mas antes de começarmos a namorar, eu a chamei pra ir passar a tarde em minha casa. Como uma das regras que meu irmão me impôs naquela época era que quando eu chamasse alguém, independente de quem fosse, ele teria que estar em casa. Daquela vez não seria diferente. Assim que cheguei em casa, com Melissa em meu encalço, Basil me parou na porta.
“Ela não está usando o hidjab.” Ele falou.
“Basil, não estamos no Líbano. E ela não é mulçumana. Já falamos sobre isso.” Falei.
Ele me cedeu passagem, mas bloqueou a passagem de Melissa.
“Qual o seu nome, menina?” ele perguntou.
“Melissa Andrade. O senhor deve ser Basil, o irmão do William.” Ela falou estendendo a mão esquerda para um aperto.
Com um ato de clara rudeza, Basil deixou a mão dela ali. Não que eu realmente esperasse que ele fosse apertar a mão esquerda dela.
“Cadê o véu?”
“Basil, meu senhor, deixe a menina entrar. Nós já combinamos que ela não teria que usar nenhuma porcaria de véu.” Eu já começava a me estressar e deixei claro.
“Sem o véu ela não entra, Fatih. Não adianta.”
“Ela vai entrar sem o véu, seu imbecil. A gente combinou que seria assim. Não volte atrás com a sua palavra.”
Dali a um segundo, um sorriso palhaço surgiu no rosto do meu irmão e ele começou a gargalhar. Encontrei o olhar confuso de Melissa. Aquela era mais uma das pegadinhas sem graça do Basil.
“Melissa, pode entrar. Isso foi uma brincadeira. Só tava testando os limites do esquentadinho aqui.” Falou Basil “É que ele andou falando um pouco demais sobre você, então decidi fazer um teste com ele.”
Naquela época eu realmente era meio estourado, mas tinha aprendido a me conter um pouco. Eu e Melissa passamos a tarde fazendo besteira. Ensinei a ela algumas palavras e expressões em árabe, além de apresentar a ela a baklawa, um doce que eu particularmente adoro.
Alguns dias depois, eu perguntei se ela ainda praticava o piano. Ela disse que sim, mas estranhou quando eu pedi pra ouvi-la tocar. Passamos o dia ouvindo gracinhas de colegas, principalmente ela, mas ela não parecia se importar.
Na casa dela, tive uma bela de uma surpresa. Ela sempre me dizia que não tocava muito bem e tudo mais, mas ela tocou de um jeito maravilhoso pra quem ainda estava tocando pelas partituras e tinha começado no ano anterior. Perguntei se ela toparia formar uma dupla comigo. Ela disse que aceitava, mas que seria temporário. Pra mim, por menos tempo que durasse, seria o tempo mais fantástico que eu viveria.
Agradeci repetidamente por ela ter aceitado a minha proposta. Ela disse que não era nada, que a deixaria até um pouco mais feliz. De repente, Mel sugeriu que fôssemos na padaria comprar doces. Aceitei. Como o tempo estava nublado, fomos equipados com casacos de moletom. Na padaria, compramos alguns doces que eu ainda estava me acostumando. Quando estávamos voltando, começou a chover.
Por causa da chuva, começamos a correr e pela situação, começamos a rir. Assim que chegamos na casa dela, ela me ofereceu roupas secas. Não sei o que me deu, mas comecei a rir, já que parecia meio estranho ela me oferecer roupas. Parei quando percebi que ela estava falando sério. Aceitei e fui no banheiro pra poder tirar as roupas molhadas e tomar um banho rápido.
“Melissa, você tem algum apelido que você goste de ser chamada?” perguntei através da porta.
“Bem, a louca da minha mãe me chama de Missy, mas não sou muito fã desse apelido. Prefiro ser chamada de Mel, mesmo.” Ela respondeu me entregando roupas secas e pegando as molhadas.
Vesti a calça que ela me entregou e saí do banheiro. Com a água escorrendo do cabelo pelas costas, fiquei no corredor, esperando que Mel aparecesse. Não sei por que, mas quando ela apareceu, tive que fazer força pra me controlar e não agarrar ela. Ela se aproximou de mim e ajeitou meu cabelo.
Com a respiração ofegante, abracei-a pela cintura e beijei-a de um jeito que eu não queria que ela esquecesse. E ela correspondeu. Fui baixando a mão e ela não se afastou.  Comecei a tirar a blusa dela, mas sem deixar de beijá-la. Aos poucos, já estávamos os dois sem roupa seguindo em direção ao quarto dela. Não aguentei. Joguei-a na cama e comecei a penetrá-la. Fui aumentando o ritmo e ficamos assim por alguns minutos até que eu pedi pra que ela ficasse em cima. Ela aceitou e foi.
Depois de alguns minutos, quando deu pra perceber que tanto eu quanto ela havíamos chegado ao ápice, ela me deu um beijo e deitou repousando a cabeça em meu peito. Olhei pra ela com a consciência de que eu queria passar o resto da minha vida com ela.
“Melissa, você já namorou antes?” perguntei.
“Bem, não. Nem tive interesse em ninguém. Aquela escola não oferece muita opção de gente decente. Ou melhor, você foi a única pessoa decente que apareceu por lá até hoje.”
“Então quer dizer que sou o primeiro cara pelo qual você se apaixona?”
“Basicamente isso”
“Quer namorar comigo?”
“Você ainda pergunta?” ela respondeu e me deu um beijo longo.
E voltou a apoiar a cabeça em meu peito.
“Obrigado por ter aparecido na minha vida” falei.
Abracei-a no jeito que a situação permitia e acabamos dormindo ali mesmo. No que pareceu pouco tempo depois, eu acordo com um grito. Era a mãe da Melissa que tinha acabado de chegar com o padrasto dela.
“Mãe, eu posso explicar.” Melissa saltou pra explicar, mas a mãe dela mal deu ouvidos.
A mãe de Melissa começou a gritar com ela, reclamando que Melissa não deveria ter dormido com um desconhecido, claramente se referindo a mim. Melissa gritou de volta pra ela dizendo que eu não era um desconhecido, mas o namorado dela, e mais um monte de coisas que eu não consegui entender muito bem.
Logo depois de Melissa terminar de gritar com a mãe dela, a porta foi batida. Percebi imediatamente que Melissa se arrependeu de ter gritado daquele jeito com a mãe. Abracei-a e ofereci que eu fosse falar com a mãe dela sobre o ocorrido. Melissa disse que eu poderia ir, mas afirmou que não tinha muita noção de qual seria a reação da mãe dela.
Vesti a calça e a camiseta que deixei no chão e fui falar com a mãe de Melissa.
“Dona Andrade, vim pedir desculpas à senhora.” Falei meio nervoso.
“Não precisa me chamar de senhora, menino. Pode me chamar de Santana. E você não tem pelo que pedir desculpas. Foi a sua namorada que fez a besteira e eu estou com raiva dela.”
“Santana, mas eu preciso lhe falar alguma coisa.”
“Pode falar.”
“Eu amo a sua filha como eu nunca amei ninguém na minha vida. Pretendo fazer tudo o que estiver ao meu alcance pra deixar ela feliz. E eu entendo que a senhora fique chateada com o que aconteceu. Não farei nada sem o seu consentimento.”
“William, seu nome, não é?” assenti com a cabeça “Eu acho ótimo que você se relacione com a minha filha. E, não sei se ela já lhe contou, mas eu tinha a idade dela quando ela nasceu e eu não quero que isso se repita com ela. E acho ótimo que você esteja empenhado a mantê-la feliz, já que sinto que falhei miseravelmente nesse quesito.”
Eu olhei pra mãe de Melissa e percebi que ela tinha medo que a história se repetisse, que sua filha cometesse o mesmo erro que ela.
“De onde você é? Melissa e eu não temos o hábito de conversar, então não tive a oportunidade de ouvir muito a seu respeito.” Santana perguntou
“Sou libanês. Me mudei por causa do meu irmão.”
Ela deu um sorriso e fez menção para que eu saísse do quarto dela. Quando eu estava quase saindo, ela falou:
“Não precisa devolver as roupas do Daniel.”
Saí do quarto da mãe dela e fui ao encontro Melissa. Contei, em linhas gerais a minha conversa com Santana e prometi que tudo daria certo.
Nos dias seguintes, nossos dias passaram a ser divididos entre as aulas e ensaios. Quase não fazíamos outra coisa além disso. Nos impomos a meta de passar numa audição. As audições das quais participamos consistiam em basicamente montar todos os equipamentos, tocar uma ou duas músicas e ouvir um ‘não’.
A nossa última audição foi meio esquisita. O teatro estava muito sucateado e cheirava a decadência, mas tinha toda uma parafernália musical e tecnológica a nossa disposição. Três homens muito diferentes entre si foram os nossos avaliadores. Eles avisaram a mim e a Melissa que éramos os únicos candidatos, mas ainda sim seríamos testados.
Eles pediram para que tocássemos alguma composição nossa. Explicamos que não compúnhamos e eles disseram que queriam alguma coisa mais próxima de original nosso. Fomos ao palco e tocamos uma de nossas paródias. No final da música, Melissa saiu correndo, derrubando algumas lágrimas. Mas antes que eu pudesse ir atrás dela, os homens pediram que eu fosse lá falar com eles.
Apesar de estar preocupado com Melissa, fui. Eles disseram que tinham gostado muito da nossa atuação, apesar de ter coisas a serem melhoradas. Quando começaram a falar sobre a nossa ida a Londres e coisas como visto e acomodação, Melissa reaparece. Abracei-a assim que a vi.
“Amor, você ouviu? Vamos pra Londres!” falei animado. Quando vi que ela não reagia, fiquei desesperado. “Melissa, você tá bem? Você tá pálida. O que aconteceu?”
Só deu tempo de ela cair de joelhos e começar a vomitar. Fiquei com medo de alguma coisa pior acontecer. Os homens garantiram que essa cena não seria levada em conta, já que, como acreditavam, era apenas nervosismo.
Alguns dias depois embarcamos em direção a Londres. A cada dia que passava, eu observava que Melissa tinha enjoos constantes. Logo nos primeiros dias, pensei que fosse por causa da mudança de alimentação e de clima, mas depois cogitei que ela pudesse estar grávida. Ela logo descartou a ideia, me dizendo que só tínhamos transado uma vez.
Alguns dias depois, Melissa reclamava de cólica, mas disse que não parecia nada que se devesse se importar. Pouco tempo depois ela começou a sangrar. Liguei pra emergência e quando os paramédicos chegaram, eles confirmaram as minhas suspeitas sobre a gravidez de Melissa, mas que não teriam condições de manter a criança.
Comecei a me sentir culpado pelo que havia acontecido com ela e passei a tomar conta do que eu pudesse para que Melissa pudesse dar seu melhor. Os meses que se passaram foram de pura ralação. Conseguimos abrir alguns shows, e até fomos convidados para abrir os shows da turnê de uma banda mais conhecida. Passamos por várias cidades, como Hamburgo e Viena. O último show da turnê foi na própria Londres e eu decidi que pediria Melissa em casamento quando a turnê tivesse acabado.
Como era fim de dezembro, as pessoas se espremiam dentro dos cafés, bares e restaurantes para ter um pouco de folga do frio que se instalara no lado de fora. Eu e Melissa fomos a um café e conseguimos, por sorte, uma mesa perto do aquecedor. Eu estava ansioso, mas tentei arranjar alguma maneira de puxar o assunto ‘casamento’.
“Amor, queria te contar um pouco sobre a minha família no Líbano.” Falei.
“Você nunca quis falar sobre isso... Por que isso agora?”
“Acho que você gostaria de saber. Bem, minha família era bem-estruturada, quase tradicional. Apesar de eu ter o Basil como irmão, a minha família sempre me tratou como filho único, o que chegou a ser meio estranho. Apesar de a gente viver num país árabe, ninguém na minha família era muçulmano. Quando meus pais morreram, eu tinha uns 12 anos e acabei ficando sob a guarda de Basil. Como é a sua?”
“Minha mãe engravidou de mim com uns 16 anos e o namorado dela fugiu. Ela nunca me disse nada sobre ele, nem o nome. Minha mãe teve muitos namorados durante os anos, mas acho que eu os espantei.” Ela deu um riso sem graça “Quando eu tinha uns 14 anos, ela começou a namorar com Daniel. Nunca gostei dele, já que ele vivia bêbado. Até os meus 10 anos eu tinha a presença da minha avó materna, que era quem pagava a mensalidade da escola. Gostava muito dela.”
“Como você queria construir a sua família?” soltei.
“Nem sei.” Duvidei “Falando sério. Só sei que eu não quero seguir o mesmo caminho da minha mãe, já que eu sei que a vida dela é um pé no saco.”
Tirei a caixa com a aliança do bolso e botei em cima da mesa, mas não tirei a mão.
“Quando eu tirar a minha mão de cima, quero que você responda a pergunta que eu não vou precisar fazer, eu acho.”
Assim que eu tirei a mão de cima da caixa, dava pra saber mais ou menos o que se passava na cabeça dela.
“Bill, não sei o que te dizer...” ela começou com um fiapo de voz e com lágrimas silenciosas escorrendo. Ela enxugou as lágrimas com a palma da mão “Esquece. Eu aceito.”
Não consegui conter um sorriso. Dali a alguns meses nos casamos. O dia do nosso casamento foi um dos melhores dias da minha vida. Não foi uma festa grande. Melissa estava maravilhosa. Ela usava um vestido simples, mas que pra mim fazia ela parecer 10 vezes mais linda.
Não tivemos lua-de-mel, mas nem eu nem Melissa ligamos. Pouco tempo depois de nos casarmos, a gravadora avisou que se não fizéssemos faculdade, seríamos demitidos. Como não tínhamos concluído o ensino médio, acabamos frequentando uma escola tradicional perto de onde estudávamos. Melissa decidiu que participaria do coral, o que acabou significando uma hora a mais na escola.
Depois de concluirmos o ensino médio, fizemos faculdade de coisas pouco comuns. Melissa fez fotografia e eu fiz o curso de pequena duração de música. Quando voltamos a trabalhar com a gravadora, não passávamos de mais uma dupla, portanto, nada de diferente a oferecer. Fomos demitidos, como já era de se esperar, e tentamos arranjar emprego com o que tínhamos. Melissa conseguiu montar um estúdio de fotografia e eu passei a trabalhar como cantor num pub perto de casa.
O que Melissa não sabe, de jeito nenhum é que a mãe dela ligou poucos meses depois de conseguirmos nossos empregos. Ela tinha saído para pegar um exame e eu tinha ficado em casa, tentando compor alguma coisa quando o telefone tocou.
“Alô? Residência dos Ajram.” Melissa odiava quando eu atendia o telefone assim, por isso eu só atendia assim quando ela não estivesse em casa
“William?” perguntou Santana com uma voz meio fraca
“Santana! Que bom que você ligou. Mas é uma pena Melissa não estar em casa pra falar com a senhora.”
“É bom que ela não esteja. Desculpa desapontá-lo. Mas é que eu preferia falar com você. Não sei se eu aguentaria falar com Melissa.”
“Tudo bem. Pode falar.”
“William, eu queria saber o que anda acontecendo por aí com vocês.”
“Bem, nada de grave.” Fiquei sem coragem de contar sobre o aborto “Melissa e eu andamos meio ocupados com as coisas da gravadora, mas não conseguimos muitas coisas.”
Ela soltou uma risadinha leve “Nesse caso, se fala ‘nada de especial’, não ‘nada de grave’. Mas eu não estava me referindo a esse tipo de coisa. Eu estava me referindo a comportamento, essas coisas.”
“Melissa está indo bem. Não fez nenhuma besteira. A não ser que a senhora conte o nosso casamento como uma.”
“Não, não. Acho até bom que vocês tenham se casado. Acho que eu não suportaria a ideia de Melissa repetindo os meus passos. Só te faço um pedido que vem junto com um conselho. Melissa é muito firme nas ideias dela. E ela, até a morte da minha mãe, sonhava alto. Depois da morte da minha mãe, eu meio que perdi Melissa também. Quando você apareceu por aqui, Melissa voltou a ser um pouco do que era antes. Por favor, mantenha essa Melissa viva. Mas não deixe que ela se machuque com os próprios sonhos.”
“Não sei se a senhora se lembra de quando eu fui à sua casa quando eu e Melissa começamos a namorar. Quando eu falei com a senhora.”
“Lembro sim. Não tinha como me esquecer.”
“Meu sentimento em relação à Melissa não mudou muito em relação ao que era. A única coisa que mudou realmente foi a minha vontade de protegê-la.”
“Tem alguma coisa que você não está me contando, William.”
Respirei fundo. Eu não queria ser a pessoa a dar a notícia a Santana.
“Poucas semanas depois que chegamos em Londres aconteceu um acidente.” Comecei
“Não aconteceu nada de grave com Melissa, aconteceu?”
“Não com ela especificamente. Não foi um acidente de carro nem nada desse tipo. Melissa engravidou, mas abortou. Juro que não foi nada planejado, nem que tínhamos previsto.”
“Como assim Melissa estava grávida e abortou? Explique melhor.”
“Quando eu estive em sua casa, eu e Melissa realmente dormimos juntos. Daquele dia, ela engravidou. Juro que não era a minha intensão. Mas aconteceu. Os paramédicos que atenderam Melissa aqui em Londres disseram que ela teve uma má formação na placenta e a dieta dela não levava em conta o que o bebê precisava.”
“Então foi isso?” Santana parecia mais calma com a ideia de um aborto espontâneo. Ao fundo eu ouvi a voz do padrasto de Melissa, Daniel, falar alguma coisa ininteligível, mas dava pra perceber que não era nada agradável “Desculpa, William. Agora vou ter que desligar. Espero que vocês realmente tenham uma boa vida juntos e cuidem-se.”
Ela desligou antes que eu pudesse falar mais alguma coisa. Decidi não comentar com Melissa sobre o telefonema da mãe dela porque eu sabia o efeito que isso teria nela. Melissa, com toda a certeza, começaria a enumerar as besteiras cometidas pela mãe e ligaria de volta só para ter certeza de que a mãe teria ouvido. E eu também sabia que isso não seria bom para nenhuma das duas.
Pouco depois de desligar o telefone, a dor de cabeça que eu tinha desde que tinha acordado piorou. Piorou tão drasticamente que eu não conseguia aguentar. Conscientemente, não me lembro do que aconteceu entre a minha queda e a chegada ao hospital, mas pelo que me foi dito, Melissa chegou em casa e me viu urrando de dor e chamou a emergência.
Quando acordei, eu estava num quarto de hospital. Do meu lado, uma enfermeira ajeitava a bolsa de soro no poste. Olhei ao redor e não vi nem sombra de Melissa.
“Cadê a minha mulher?” perguntei à enfermeira.
“Ela está na sala de espera. E só poderá vir quando o médico autorizar.” Ela respondeu e saiu.
Poucos segundos depois um médico entra no quarto.
“Como se sente?” ele pergunta
“Bem.”
“Vou fazer algumas perguntas, mas são só pra checar se está tudo certo com você.”
“O que eu tenho?”
“Você foi diagnosticado com um tumor no cérebro. Ele é benigno, mas está numa área que torna a retirada impossível. Por isso as perguntas. Posso começar?”
“Claro.”
“Seu nome completo.”
“William Fatih Ajram”
“Algum irmão ou irmã? Se sim, qual o nome completo dele ou dela?”
“Tenho um irmão. Basil Ali Ajram.”
“Casado, solteiro ou namorando?”
“Casado com Melissa Andrade Ajram.”
“Você sabe dizer em que cidade você está?”
“Londres, Inglaterra.”
“Ótimo. Suas respostas indicam que você não teve nenhuma perda de memória. Daqui a pouco eu volto pra fazer uma checagem mais completa.”
E ele saiu. Apertei a campainha das enfermeiras e, em pouco tempo, uma veio me atender.
“Eu queria ver a minha mulher.”
“Vou falar com o médico e depois eu volto.”
“Obrigado.”
Não muito tempo depois, Melissa entra no quarto. Ela entrou e se sentou na beirada da cama com cuidado.
 “Amor, tenho uma novidade.” Ela começou a falar, mexendo no meu cabelo.
“Diga.”
Ela pegou a minha mão e pôs na barriga dela. Não consegui conter um sorriso. Um filho. Pra mim, aquilo era maravilhoso.
“Desde quando você sabe? Digo, isso é maravilhoso!” não me contive
“Soube hoje. Mas já suspeitava há algumas semanas. To quase no terceiro mês.”
“Melissa, você não sabe o quanto isso significa pra mim.”
“Bill, calma.”
“Pra que calma, Melissa? Nossa filha vai ser igual à mãe. E, no que depender de mim, ela vai ter tudo o que merece.”
“Você já sabe que vai ser uma menina?”
“Claro que vai ser uma menina.”
Admito, com a notícia que Melissa me deu, eu quase que esquecia do tumor e saía pela rua cantando de felicidade. Quando recebi alta do hospital, liguei pro meu irmão pra contar que eu seria pai.
“Ali, eu vou ser pai!”
“Como assim, você vai ser pai? Quem tava no hospital era você, não Melissa.”
“O que aconteceu comigo não tem grande importância agora. O que importa é que eu vou ser pai.”
“Sinceramente, parabéns, Fatih. Sem querer estragar a sua alegria, mas eu quero saber o que você tem. Você deu um susto sério tanto em mim quanto em Melissa.”
“Basil, é sério. Eu não quero falar sobre isso.”
“Será que eu vou ter que descobrir tudo o que acontece com o meu irmão pela mulher dele?”
Era incrível como Basil conseguia o que queria com um truque de palavras. Obviamente, meu humor murchou.
“Tá bom. Você venceu. Fui diagnosticado com um tumor benigno no cérebro. O médico disse que não tem como remover, mas tem como controlar. Vou ficar recebendo radiação pra ver se reverte ou pelo menos se controla.”
“Agora eu vou ter que ir. Se cuida, Fatih.”
Quando desliguei o telefone, fiquei intrigado com o fato do meu irmão ficar muito preocupado com qual teria sido o meu diagnóstico e, de repente, ter dado uma desculpa qualquer para desligar. Alguns dias depois, quando saímos juntos para ver uma coisa qualquer que Melissa tinha pedido que eu visse enquanto ela tinha uma sessão de fotos, ele me pareceu nervoso. No dia, eu e Melissa já sabíamos que seria um menino, mas ainda não havíamos escolhido o nome.
“Ali, você não está bem. Pode me falar.” Comecei
“Não é nada, Fatih. Eu to bem. Quem deveria estar preocupado era você. Vai ter um filho e tá com esse troço.”
“Ali, me escuta. Eu sei me cuidar. Eu não sou mais aquele pirralho de doze anos que você teve que tomar conta quando nossos pais morreram. Já to casado e pra ter um filho. Acho que já passou do tempo de você começar a confiar em mim, não acha?”
“Ok, ok. To preocupado com a sua doença. Além de não achar justa toda essa situação.”
“Como assim?”
“Você mal casou com a Melissa, acaba de descobrir que ela tá grávida e ainda por cima tá com um câncer. Quem deveria estar com esse câncer sou eu, não você.”
“Ali, antes de sair falando merda, você deveria se ouvir mais. Nem eu nem você temos culpa desse maldito câncer. E, não sei se você se lembra, mas esse câncer é benigno. Se eu me tratar direito, eu posso estender a minha vida por um bom tempo. Quem sabe até mais uns dez anos.” Forcei uma risada “Imagina, eu, daqui a uns quatro anos, olhando o meu filho andar na primeira bicicleta dele.”
“Não delira, Fatih.” Meu irmão não tirava a carranca do rosto “Isso é vida real. Não existe mágica. Não que eu não queira que você veja seu filho dar os primeiros passos e tudo mais, mas acho que o que você tá precisando é de uma cura mágica ou de um milagre.”
“Basil Ali Ajram. Não estamos num subúrbio libanês, entregues à nossa própria sorte. Estamos na Inglaterra. Aqui eu tenho condições de me tratar direito como qualquer pessoa normal. E, tá certo, eu posso não durar dez anos, mas eu posso garantir que Melissa sabe lutar bem o suficiente pra garantir qualquer coisa que o nosso filho precise.”
“Tem certeza, pirralho?”
“Vamos fazer um acordo? Como eu sei que você não vai desistir nem tão cedo, vamos lá. Se eu morrer logo, ou morra a qualquer momento, você vai cuidar de Melissa e do meu filho em tudo que eles precisarem. Combinado?”
“Como se eu fosse deixar a minha querida cunhada e meu único sobrinho na mão. Por sinal, vocês já escolheram o nome do menino?”
“Ainda não. Melissa quer escolher o nome, mas não se decide entre Arthur e Gregory. Um dia ela diz que vai ser Arthur, no dia seguinte diz que vai ser Gregory.” ri
Naquela época, eu ainda me surpreendia com algumas atitudes simples que Melissa tomava, assim como o meu irmão. Mas eu sentia que, independente do nome que o meu filho tivesse, ele teria total apoio tanto do meu irmão, quanto de Melissa. Durante toda a gravidez, fiz questão de ajudar Melissa no que fosse necessário e, obviamente, tomava todos os remédios que o médico mandava.
No dia que o Gregory nasceu, eu me senti a pessoa mais feliz do mundo. Eu e Melissa íamos fazer um passeio leve, pra respeitar a condição dela. Tomamos café-da-manhã numa padaria perto de casa e, antes de realmente sair, Melissa se lembrou que tinha deixado a bolsa em casa e que queria pegar. Assim que pisamos em casa, a bolsa estourou. Fomos correndo pro hospital. Quando vi, pela primeira vez, o rosto do meu filho, acho que entendi porque os pais babam tanto por seus filhos.
Ajudei Melissa a cuidar do Greg em tudo que era possível. Eu sabia que Melissa ficava preocupada com toda a situação e eu fazia de tudo pra que ela visse que não tinha necessidade de tanta preocupação.
Antes do primeiro aniversário do Greg, Melissa recebeu a notícia de que a mãe dela tinha morrido. Lembro que na hora que o telefone tocou, eu estava no quarto, compondo uma música qualquer que o pub tinha me pedido. Melissa ia sair com o Greg, mas acabou atendendo o telefone. Como ela atendeu na sala, eu não ouvi o que dizia. Alguns minutos depois, ouvi o choro dela.
Cheguei na sala pra ver Melissa toda encolhida ao lado do telefone chorando. Me doeu muito ver aquela situação. Abracei ela.
“Mel, meu amor, o que aconteceu?” perguntei
“Minha mãe...” foi tudo o que ela conseguiu falar.
Entendi toda a tristeza dela e a abracei mais forte. Eu sabia que, por mais que ela detestasse admitir, ela amava Santana. Prometi que pagaria a ida dela pro Brasil pra se despedir da mãe e que ficaria cuidando do Greg enquanto ela estivesse fora. Ela passou uma semana por lá e depois voltou.
Quando o Greg fez um ano, fiquei feliz por dois motivos. Por ter conseguido aguentar a doença por tempo suficiente pra comemorar um aniversário dele e por ele me lembrar, quase o tempo todo, de que eu não vou deixar a Melissa sozinha.
Poucos meses depois do aniversário do Greg, senti uma dor pior do que em qualquer momento da doença. Temi que aquele fosse ser meu último momento. Ali, me contorcendo no chão de casa, sozinho. Por sorte, Melissa chegou em casa a tempo de ligar para a emergência.
Fiquei na UTI, recebendo visitas alternadas do meu irmão e da Mel. Durante uma visita da Mel, eu me sentia fraco, mas melhor. Ela estava com o Greg nos braços. Em um momento, ele começou a se balançar violentamente nos braços dela, como quem quisesse sair dali. Fiz menção para que Mel o colocasse ao meu lado na cama. O jeito que a Mel ficou olhando pra mim e pro Greg, parecia que iria chorar.
“Mel, tira uma foto. Só pro nosso pequeno saber quem é o pai.” Falei
Ela tirou a foto. Pouco tempo depois, Greg falou com aquela voz típica de criança um sonoro ‘eu te amo’ pra mim. Acho que assim, qualquer um pode ficar em paz.

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