Monday, September 24, 2012

A Pianista



Eu nasci numa situação meio estranha. Minha mãe tinha acabado de ser largada pelo namorado (meu pai, pelo que me foi contado) e a família dela a obrigou a trabalhar. Cresci nesse meio.
Quando comecei a ir pra escola, tive que frequentar escolas públicas, já que o salário de secretária da minha mãe não dava conta. Antes de terminar a 1ª série, minha avó determinou que a minha educação tinha que ter um cuidado maior e, a partir da 2ª série, comecei a estudar na escola particular ao lado de onde eu morava.
No dia em que a minha avó morreu, minha mãe se desesperou. Mas a minha avó tinha pensado em tudo (acredito eu) e fez com que, mesmo após a sua morte, fosse depositado na conta da minha mãe o valor da mensalidade.
Durante toda a minha vida, minha mãe teve vários namorados. A maioria foi “espantada” pela minha presença. Mas quando eu completei 14 anos, ela trouxe pra casa um namorado que vivia bêbado e drogado, além de viver maltratando ela.
Quando essa história aconteceu, eu tinha uns 16 anos e era uma garota inconsequente como outra qualquer. Se não fosse por aquele mês, eu estaria numa vizinhança que me viu crescer e que me deixava deprimida e infeliz.
No primeiro dia de aula daquele ano, fui pra escola a contragosto, pois não queria ver aqueles pentelhos infernais e as garotinhas histéricas se reencontrando após dois longos meses de separação. O dia seria patético, se não fosse por aquele garoto novo.
Ele andava esquisito, parecia que estava andando fazia meses. Seu cabelo cor de palha e suas roupas velhas e grandes para o seu tamanho não lhe ajudavam. Ele lançava um olhar nervoso ao seu redor. Quando seu rosto magro e pálido se virou para mim, senti um arrepio. Aquele garoto parecia anêmico ou algo do tipo.
Não era de se estranhar que todos os outros alunos o encarassem. Ele era novato, estranho e esquisito. E ninguém queria manchar a própria reputação ao lado do esquisito. Como eu já tinha uma reputação desgraçada sendo a maconheira delinquente, fui atrás do novato. Quando me aproximei dele, ele entrou no prédio do colégio. Fui o seguindo até que eu o alcancei. O seu cheiro era bom. De certa forma era estranho e altamente familiar.
Quando eu encostei a minha mão no ombro dele, ele quase pulou de susto e começou a xingar numa língua que eu aprendi a reconhecer como árabe.
“Desculpa, não quis te assustar.” Falei “Meu nome é Melissa. Bem vindo a…”
“Sou William.” Ele me cortou “Não precisa me dar as boas vindas. Eu já percebi que nessa escola é preciso ser bonito e fútil pra fazer amigos.” Respondeu o garoto de maneira seca
“Bem, não é bem assim. Eu detesto essa galera” apontei pro lado de fora “E eu quero ser sua amiga, e não acho que você seja fútil, mas te achei bonito.”
“Não quero uma amizade por pena. Já tive que me mudar por causa disso. Não quero repetir a minha vida da outra cidade aqui.”
Ele saiu andando em direção à secretaria. Arrepiei-me de novo. Ele conseguia me assustar. E eu nem conhecia ele direito. Intriguei-me.
“William, não quero ser sua amiga por pena. Falando sério. Eu não tenho amigos nessa escola. Eu sei como é ruim não ter amigos. Estudo aqui desde que eu tinha 8 anos de idade. Se fosse por pena, você acha que eu te ofereceria amizade? Você tem que me conhecer. Odeio amizade por pena.”
“Ok, Melissa. Entendi o recado. Vamos andando que eu ainda tenho que pegar meu horário e descobrir em que merda de sala eu estou.”
Andamos até a coordenação. Como em todos os anos, vinha aquela chatice de ‘como você passou as férias, Melissinha?’ ‘você está linda ’ das funcionárias mais antigas que sempre me viam depois de uma briga com uma das histéricas da turma. Elas me olharam com ares de risos quando me viram entrando com Bill. Afinal de contas, até elas sabiam que eu não tinha amigos na escola. Dava pra perceber os cochichos e boatos que rolariam lá no colégio durante os próximos dias.
Eu sei que é meio triste não ter amigos e ser vista como uma delinquente. Mas a culpa não era propriamente minha se na minha turma só tinha patricinhas histéricas e mauricinhos metidos a besta. E burros. Muito, já que não entendiam meia dúzia de palavras sarcásticas. Nem faziam nada da vida. A maioria é filhinho de papai que tem tudo na mão e os pais são ricos. E não escutam música boa. Só aqueles pagodes e bregas horrorosos.
“Melissinha, meu amor, vai querer alguma coisa? Ainda tem o seu horário?” perguntou Jamile, uma senhora muito simpática, mas muito fofoqueira da coordenação.
“Ainda tenho meu horário. Minha mãe não me deixaria perder.” Respondi com um tanto de mau humor “Só to acompanhando o gringo, mesmo.”
Tá certo, eu não comentei antes, mas Bill tem realmente cara de gringo, sotaque, roupa de estrangeiro, enfim, era gringo. E não adiantava ele fingir que não era, por que o meu faro sempre acertou. Melissa Andrade nunca falhou. Aquele perfume que ele tava usando, não era vendido por um preço muito baixo. E brasileiros nunca usam roupas feito aquelas pra ir pro colégio.
Eu e Bill saímos da coordenação e ficamos no pátio até tocar o segundo sinal que nos obriga a entrar em sala.
“Qual a tua sala?” perguntei, tentando ser amistosa
“607. E que fique claro: de onde eu venho, aquela cena” ele apontou pras patricinhas histéricas se abraçando falsamente “é motivo de vergonha. Já to vendo que vou me dar mal com esse povo.”
“Ainda te restam dúvidas? Eu estudo nessa merda desde os meus 8 anos de idade, nunca fiz um amigo e já saí na porrada com pelo menos três garotas dessas. E de onde você veio, hein? Por que você só fala que ‘de onde eu venho isso’ ‘de onde eu venho aquilo’…”
“Você não quer saber de verdade. Muita gente me abandonou por eu ser de onde eu venho.”
“Desculpa, mas eu não me enquadro nessa lista. Nunca rejeitei ninguém por ser de lugar nenhum. Mas já rejeitei um bocado de gente pela personalidade.”
“Beirute. Não espalha, tá? Já é ruim o suficiente ter fugido de babacas preconceituosos por lá pra ter que fugir daqui por causa desses idiotas.”
“Pra quem eu iria espalhar? Pra minha mão?” levantei e olhei pra ela “É, acho que não. Como eu disse, eu não tenho amigos por aqui. Eu não teria a quem contar isso.”
Pra falar a verdade, eu aceitaria esse cara mesmo se ele fosse filho de Hitler. Ele é mais gato do que qualquer babaca desse colégio. E me pareceu ser interessante desde o começo. E ignorar o garoto só porque ele é libanês? Fala sério! Isso se chama burrice e eu não sou, nem nunca fui adepta desse tipo de coisa.
Além do mais, quem excluiu ele pela aparência naquele primeiro dia de aula, não tinha nem noção do que poderia acontecer. E por incrível que pareça, nem eu. Só achava que era um amigo, um único amigo pra dizer que era minha dupla. Mas ele se tornou muito mais do que só uma dupla. Muito mais do que um mero amigo. O que era pra ser o preparatório para o terror do terceiro ano se resumiu a dois ou três meses ridículos de aulas mal assistidas e ensaios enlouquecedores.
As aulas daquela segunda-feira se tornaram mero borrão na minha memória. Tudo que consigo lembrar era da dificuldade que Bill tinha em pronunciar algumas palavras. Nos momentos em que os professores o mandavam se apresentar ele enrolava e dava uma desculpa qualquer para não se apresentar em voz alta na frente da turma. De início eu pensei que era timidez, mas ao longo daquela semana descobri que era apenas uma forma de não chamar atenção.
Na semana seguinte, eu já tinha me tornado melhor amiga dele. Contamos tudo sobre as nossas vidas. Sabíamos de tudo um sobre o outro. Local de nascimento, cidades por onde havíamos passado, escolas onde havíamos estudado e tudo mais.
Um dia qualquer ele me chamou pra ir pra casa dele. Logo que ele me chamou eu fiquei meio chocada, já que ele ainda tinha alguns hábitos muito... como dizer... “certinhos”. Por exemplo, ele nunca sentava numa cadeira ou banco que uma menina tivesse sentado. Mas aceitei e fui. O irmão dele, Basil, fez uma pegadinha logo que eu cheguei, mas durante o resto da tarde foi muito gente boa.
Algumas semanas depois, ele me perguntou se eu ainda praticava piano. Eu disse que, obviamente, não tinha desistido do piano, já que o piano se tornara minha única forma de consolo e de tranquilidade. Ele também me perguntou se eu não aceitaria tocar por dinheiro, principalmente por que pianistas profissionais ganhavam muito. Não consegui responder, por que nunca tinha pensado em tocar por dinheiro.
Lembro-me de ter passado o dia inteiro pensado no que Bill tinha me perguntado. Não entendia porque ele teria interesse no piano. O interesse dele era praticamente todo pro rock clássico. E só umas poucas músicas tinham piano. E menos ainda tinham solos de piano.
No dia seguinte, ele insistiu em ir comigo até em casa para me ouvir tocar. Estranhei o pedido, mas aceitei. O dia tinha sido estressante com todas aquelas perguntas idiotas de: ‘você e o William estão namorando?’ ‘o que você viu no William? Ele não é tão atraente. ’. Decidi que eu merecia uma rodada de piano, mesmo que com plateia. E Bill também merecia. Como eu morava literalmente do lado do colégio, chegamos num instante. Joguei minha mochila no sofá e disse pra ele fazer o mesmo, já que a minha mãe não estaria e casa antes das 7 da noite.
Fomos até a sala do piano. Peguei aquelas minhas partituras preferidas que eu estava decorando. Toquei por uns 15 minutos, até que eu achei que Bill estava dormindo. Espantei-me quando o vi de boca aberta e de olhos arregalados me encarando. De início achei que ele não tinha gostado. Afinal, eu tinha começado ano anterior, e ainda estava tocando pelas partituras, mas quando ele decidiu falar, ele disse que tinha sido fantástico e não esperava que eu, de tantas pessoas, tocasse daquela forma. E ele só tinha me pedido para tocar pra ele porque ele estava atrás de alguém que soubesse tocar e que pudesse formar uma dupla com ele.
Para mim, aquela proposta parecia irreal. Principalmente porque era um cara que eu tinha acabado de conhecer. Aceitei, mas disse que aquilo seria temporário. A ideia de uma dupla, com ele, naquele momento, parecia completamente surreal. Nunca fui do tipo de pessoa que iria despertar a atenção das pessoas num ambiente lotado.
Bill começou a me agradecer repetidamente por ter aceitado o pedido pra formar a dupla. Respondi que não era nada, que aquilo me deixaria um pouco mais feliz. De repente eu tive a nada brilhante ideia de irmos até a padaria da rua para comprarmos doces. O dia estava nublado e estávamos equipados só com casacos de moletom. Chegamos na padaria e compramos tudo que tínhamos direito. Quando fomos voltar para casa, começou a chover. Fomos correndo que nem dois retardados. Mas não ligamos. Chegamos em casa ensopados.
Ríamos como duas crianças. Imediatamente ofereci roupas secas. Prometi que daria calças e camisetas que podiam servir nele e que não ficariam com cara de viado. Ele riu, achando engraçado, até perceber que eu estava falando sério. Deixei-o tomar banho e peguei uma camisa e uma calça seca. Roupas tais que eram do meu “padrasto”.
“Melissa, você tem algum apelido que você goste de ser chamada?” Bill me perguntou do nada
“Bem, a louca da minha mãe me chama de Missy, mas não sou muito fã desse apelido. Prefiro ser chamada de Mel, mesmo.” Respondi, entregando as roupas secas e pegando as molhadas.
Fui estender as roupas molhadas enquanto Bill se vestia. Ele se tornara o amigo que eu precisava. Depois dele eu consegui ser um pouco feliz, sentir vontade de sair de casa.
Quando eu voltei, ele parecia um menino pequeno e perdido. Não pude deixar de reparar que ele tava muito gato daquela maneira. Ele não me forçou a nada, me respeitou o tempo todo. Aproximei-me dele pra ajeitar o seu cabelo. A gente ficou com os rostos próximos e quase encostados. Só estávamos separados por alguns centímetros.
Meses de amizade forte e intensa cultivados resultaram numa tensão entre nós dois. Respirávamos ofegantes. Os rostos quase colados nos deixavam com vontade de nos beijarmos. Bill tomou a iniciativa. Abraçou-me pela cintura, de uma maneira firme e forte. Ele me beijou ardentemente e eu correspondi. Isso me deixou com vontade de ir pra cama com ele. Íamos nos aprofundando e tirando a roupa. Não ligávamos para o tempo.
Guiei-o até o meu quarto. Dava pra perceber que ele queria. Ele me jogou na cama e subiu por cima de mim. Ele começou a me penetrar. De primeira doeu. Parecia que uma faca ia me cortando. Não me assustei. Sabia que aquilo era um novo passo na minha vida. Eu estava perdendo a minha virgindade para um cara que eu conhecia havia alguns poucos meses. Mas não liguei. Em momento nenhum liguei.
Bill foi muito gentil comigo. Começou a acelerar. Foi ficando mais forte e melhor. E eu não conseguia me segurar. Ia ficando difícil de não gemer. Eu gemia. Alto. E cada vez que ele me penetrava, o prazer foi substituindo a dor. Ele se mostrou cada vez mais entusiasmado. Sussurrava palavras doces no meu ouvido. Chegou um momento que ele pediu para que eu ficasse em cima. Fiquei. Eu podia estar perdendo a virgindade naquele momento, mas eu sabia muito bem de posições. E entendia o que Bill queria. Passei alguns minutos cavalgando.
Ele gemia. E eu ia fazendo mais rápido. Terminamos nos beijando e eu deitei sobre o seu torso nu. Ele olhou pra mim de um jeito que eu não tinha visto antes.
“Melissa, você já namorou antes?” ele perguntou
“Bem, não. Nem tive interesse em ninguém. Aquela escola não oferece muita opção de gente decente. Ou melhor, você foi a única pessoa decente que apareceu por lá até hoje.”
“Então quer dizer que sou o primeiro cara pelo qual você se apaixona?”
“Basicamente isso”
“Quer namorar comigo?”
“Você ainda pergunta?” dei um beijo longo nele.
Apoiei a minha cabeça no peito dele.
“Obrigado por ter aparecido na minha vida” ele falou
Acabamos cochilando ali, nus e felizes. De repente eu acordo com um grito. Era a minha mãe que tinha acabado de chegar com seu namorado drogado e me viu naquela cena com Bill.
“Mãe, eu posso explicar.”
“Melissa Andrade, eu não esperava isso vindo de você.”
“Mãe, escuta.”
Minha mãe não escutava. Falava, falava muito. Reclamava que eu não devia ter transado ali com um desconhecido.
“Agora você vai me escutar, Santana. Primeiro: William não é desconhecido. Ele é o meu namorado. Segundo, se você não percebeu, o garoto está aqui. A não ser que você queira manter uma imagem de louca histérica, cale a boca e só fale quando for pra se desculpar.”
“Melissa, eu sou a sua mãe! Tudo o que eu faço é para o seu bem!”
“E é para o meu bem ter esse drogado que você chama de namorado como padrasto? É para o meu bem eu não saber quem é o meu pai? Pra mim chega, mãe.”
“Não fale assim do seu padrasto! E fale direito comigo! Eu sou a sua mãe!”
“Uma mãe irresponsável que deixa qualquer imbecil vir até aqui em casa te bater não pode vir me exigir respeito. Se quiser respeito, se respeite.”
Ela bateu a porta entre nós.
Sim, na maioria das vezes eu era a mãe e ela a filha. Ela trabalhava, mas quem gerenciava a grana era eu. De vez em quando, como naquele dia, eu me dava um luxo. Mas a minha mãe exagerava nas coisas. Quando eu fiz a tatuagem que carrego nas costas, ela deu um piti. Eu odiava quando ela fazia aquilo.
O gesto da porta batida na minha frente me persegue até hoje. Isso mudou muito o meu relacionamento com a minha mãe. Eu sabia que havia a magoado, mas eu nunca soube lidar nem me expressar sobre esse tipo de frustração.
Aquele dia me entristeceu muito, mas também me animou. Eu tinha perdido a minha virgindade para um cara que sempre me tratou bem. Fui convidada para formar uma dupla com esse mesmo cara. Mas tive uma briga séria com a minha mãe, o que me custou muito, pois nunca mais eu voltaria para casa nem teria as suas palavras de consolo quando estivesse triste.
Depois da cena deplorável entre eu e a minha mãe, qualquer cara iria se mandar e nunca mais iria querer saber de mim, não é? Pois bem. Bill não era, nem nunca foi, um cara normal, essa é a verdade. Ele ficou pra me dar apoio. Propôs-se para justificar para a minha mãe o que tinha acontecido. Ele foi falar com ela, mas não houve muito avanço positivo. Ela só fez deixar claro que estava decepcionada com a minha atitude e que Bill não tinha culpa. A atitude dele me deixou feliz e me serviu de prova pelo amor dele.
Você deve estar de perguntando: ‘Por que ela ta falando no passado?’ ‘Como assim? Bill a amava e não ama mais?’ O buraco é mais fundo do que se pensa. Se eu to contando essa história para vocês, eu tenho um motivo. Ouça-a até o fim para entender o que eu quero transmitir.
Continuando, naquele momento eu tive a certeza de que eu poderia contar com Bill pro que eu precisasse. Ele seria o meu fiel escudeiro.
Os dias que se passaram me mostraram que perseverança e determinação são incrivelmente importantes. As minhas tardes deixaram de ser aquela preguiça rotineira depois das aulas. Passaram a ser puxadas, eram ensaios e audições que me deixavam um caco de noite. Se eu já quase não via a minha mãe antes disso, naqueles dias era que eu não via mesmo. A minha vida tinha só um sentido: conseguir me aperfeiçoar e passar em uma audição.
As audições eram basicamente chegar lá carregando toda a parafernália eletrônica, entrar no estúdio, armar o circo todo e tocar uma ou duas músicas. Invariavelmente ouvíamos um ‘não’ como resposta. A única diferença era como o ‘não’ era dito. Mas eu e Bill íamos de audição em audição para ver se daquela vez seria diferente. Dava pra perceber que, quanto mais os dias passavam, íamos ficando melhor, mais sincronizados.
A nossa última tentativa foi a mais esquisita. A audição foi num teatro quase abandonado no centro. Uma boa quantidade de coisas estava montada no palco. Tinha um piano, instalação elétrica e amplificadores a disposição dos candidatos.
Na frente do palco, de pé, estavam três homens. Um estava sério e vestia terno e gravata. Ele gesticulava muito, mas falava baixo. Sua expressão demonstrava raiva. O rapaz de camiseta e cabelo loiro ao seu lado tentava acalmá-lo inutilmente. O último homem vestia uma roupa que era claramente asiática. Ele parecia ser o mais calmo dos três.
De repente, os três pararam de se encarar e olharam em volta no teatro praticamente deserto. Quando nos viram, o homem de roupa asiática nos chamou. Fomos até lá. Os homens nos olhavam seriamente e o jovem de camiseta avisou que eu e Bill éramos os únicos inscritos na audição, mas não deixariam de nos testar. Ele mandou a gente tocar uma música que fosse de nossa autoria. Explicamos que não compúnhamos, mas que tentávamos através de paródias. Então ele disse que queria que tocássemos uma de nossas paródias.
Subimos no palco, nos ajeitamos e começamos a tocar. Lembrei-me dos finais de tarde em que fazíamos piadinhas sobre a escola, das vezes em que soltávamos sarcasmos ácidos cruéis para os colegas da escola. Não consegui controlar as minhas emoções no final da música. Comecei a derramar lágrimas silenciosas que, ao som dos últimos acordes da música, se transformaram em choro. Levantei-me e procurei desesperadamente pelo banheiro. Sabia que aquela atitude não era nada profissional e que os caras poderiam me cortar por causa daquilo. Mas não liguei.
Assim que achei o banheiro, lavei meu rosto, olhei pro espelho e tentei sorrir. Aquela era a Melissa Andrade que eu julgava a verdadeira. Distante, sem sentimentos aparentes além de claro desdém.
Quando retornei para a sala do teatro, vi Bill conversando com os três caras. Eu não via o rosto nem ouvia a voz de Bill, mas sabia que ele estava falando. Achei que tínhamos reprovado no teste. Mal sabia eu que aquela conversa era uma confirmação de que a minha vida jamais seria a mesma. Naquele momento eu também não sabia que dali a três meses eu abortaria o que seria fruto da minha relação com Bill.
Cheguei ansiosa perto dos rapazes. Quando cheguei perto, pude perceber que falavam em inglês, e que eles teriam que cuidar de coisas como visto. Paralisada de emoção, mal percebi o abraço quente de Bill.
“Amor, você ouviu? Vamos pra Londres!” ele falou animado. Quando viu que eu não reagia, ficou meio desesperado. “Melissa, você ta bem? Você tá pálida. O que aconteceu?”
Naquele momento me subiu uma ânsia de vomito, um enjoo muito forte. O perfume do homem de roupa asiática estava forte demais. Minhas pernas fraquejaram e cai de joelhos no chão. Ali mesmo vomitei. Bill me segurava pela cintura, preocupado. Jamais vou esquecer o terror e o medo nos olhos dele.
Assim que eu terminei de vomitar, senti um jorro de vergonha me invadir. Na única audição que eu havia conseguido passar, eu passava por um vexame daquele. Os homens prometeram que aquilo não seria levado em conta, já que sabiam que era puro nervosismo. Eles não sabiam o quanto haviam se enganado. Aquilo era um aviso de que uma criança estaria a caminho.
Se, naquela época, eu soubesse que eu ficaria grávida de Bill, não teria transado aquele dia. Não que eu ache que duas pessoas puras tirando a virgindade uma da outra seja uma experiência ruim. Acho até mais construtiva do que perder a virgindade para alguém que já não seja. E eu acho que eu deveria ter tomado cuidado aquele dia.
Depois do episódio da audiência só tive tempo pra ir ao juizado com a minha mãe tirar a minha carta de alforria. Ou melhor, o documento que dizia que eu era emancipada. Fui empacotando as minhas coisas, o que eu mais gostava no meu quarto, como quadros, pôsteres e livros. Além de roupas, claro. Minha cabeça girava. Eu tinha sido contratada para ser lançamento de uma gravadora estrangeira, o que me daria a oportunidade de conhecer pelo menos mais um país que não fosse o meu.
Chegando em Londres depois de quase um dia inteiro viajando, quase caí de tanta emoção. Era tudo muito mais bonito do que eu imaginava. Eu ficava olhando feito uma tonta de um lado para o outro, apontando para tudo que era um pouco diferente da rotina pra mim. Não, viajar para o exterior não era uma atividade rotineira. Mas, o que era vagamente diferente de qualquer coisa que eu esperava.
Os dias se passaram, e junto com eles, a euforia inicial que eu tive. Passei a ter que ensaiar todos os dias, frequentar a escola pra terminar o ano e ter que cuidar do meu corpo. De início, estranhei o excesso de enjoos que eu tinha. Pensei que era pela mudança de clima e de alimentação.
Depois foi aumentando a frequência e o meu ciclo não vinha. Cogitei a possibilidade de estar grávida, mas ignorei, pois eu só tinha transado uma vez na minha vida. Quando eu realmente fui aceitar o fato de estar grávida, já era tarde demais. Eu estava na ambulância a caminho do hospital em processo de aborto espontâneo.
O que aconteceu com a minha vida profissional durante esses primeiros meses não foi tão importante. Consegui conquistar um humilde público nos arredores de Londres e nada muito além disso. É claro que todo músico quer conquistar uma enorme legião de fãs enlouquecidos pelo seu som. Mas eu sempre fui realista. Para conquistar meia dúzia de fãs é difícil e complicado. Quanto mais meio mundo deles.
Depois do aborto, passei a me prevenir mais, afinal estava em início de carreira e a gravadora disse que não admitiria se eu aparecesse grávida de novo por lá.
Passamos alguns meses trabalhando em Hamburgo, Viena, Praga e em Paris. Eu e Bill nos juntamos mais e mais. A cada dia que passava, a união entre nós só aumentava. Até que um dia, ele me pediu em casamento. No dia, estávamos em turnê, abrindo os shows de uma banda maior que a nossa. Estávamos cansados, depois de algumas noites mal dormidas. Eu lembro perfeitamente de como foi.
Era fim de Dezembro. O café estava lotado, com pessoas que vinham de todos os lugares da cidade. Com muita sorte, conseguimos uma mesa perto do aquecedor. Bill se mostrara nervoso desde que havíamos de saído de casa. Pensava que era por causa dos shows que a gente tava fazendo. Falamos de amenidades, até que chegamos no assunto família.
Ele me contou que sempre teve uma família bem-estruturada, até tradicional. Cresceu como filho e neto único, apesar de ter o irmão. Mas quando os pais deles morreram, eles ficaram sós e até hoje era assim. Eu expliquei que a minha família era uma loucura. Minha mãe era mãe solteira, nunca cheguei a conhecer o meu pai por impedimento da minha mãe e todo esse blá - blá - blá de filha única de mãe solteira. Até que em um momento em que ele pediu pra que eu contasse como eu pretendia construir a minha.
Estranhei o pedido dele, afinal Bill nunca foi de falar de futuro, ele mesmo dizia que futuro era um assunto vago, que ninguém tinha propriedade pra prever o que iria acontecer. Ele tirou alguma coisa do bolso e colocou em cima da mesa, mas não tirou a mão de cima.
“Quando eu tirar a minha mão de cima, quero que você responda a pergunta que eu não vou precisar fazer, eu acho.”
Assim que tirou a mão de cima de uma caixa de veludo azul Royal eu entendi tudo. A conversa sobre o futuro, sobre família… Era na verdade um pretexto para me pedir em casamento.
Por alguns segundos, fiquei sem saber o que falar. Pra mim, aquela situação era completamente irreal. Eu sempre tinha baseado a minha vida em trabalho e ralação. Não planejara me casar tão nova, mas também não esperava que eu estaria onde estava.
Temi que minha vida fosse se tornar o pé no saco que era a vida da minha mãe. Eu sabia que era difícil ser mãe solteira, graças à convivência que eu tive com ela. E eu queria dar enfoque a minha vida profissional. Mas, poxa, eu já tive filho… Aceitei e nos casamos dali a quatro meses.
Em Junho, recebemos a notícia de que teríamos que fazer faculdade ou perderíamos o emprego na gravadora. Ficamos desesperados, afinal nem tínhamos terminado o ensino médio. Tentamos apelar, justificar que não tínhamos ensino médio completo, e por causa disso não poderíamos fazer faculdade.
Mandaram-nos para uma escola que era meio tradicional, perto de onde morávamos. Tinha toda aquela frescura de garotas de saia e gravata e meninos de terno e gravata. Lá pra Setembro, começaram as aulas. Pra mim, foi um pesadelo. Por dois motivos. Língua e os outros alunos. Toda hora eu tava falando português de novo e o povo simplesmente tirava onda com a minha cara por causa disso. Até que eu descobri uma forma de tirar essa fase encrenqueira dos alunos.
Tinha o coral do colégio, que era recheado dos alunos mais populares de toda a escola. Tentei entrar. Nos testes, todos se impressionaram com a minha atuação no palco e nos bastidores acalmando meus colegas, que quase desmaiavam de nervosismo. Botaram-me como solista feminina e um menino que já era aluno veterano como solista masculino. Os ensaios começaram na semana seguinte e nos transformamos num coral maravilhoso.
Os outros alunos não encrencaram tanto comigo. Só alguns que eram mais xenofóbicos, que agiam na mesma forma com Bill. Passamos de ano direto, ao contrário dos idiotas que gastavam o tempo deles tirando sarro da nossa cara. Fizemos faculdade e deixamos a carreira um pouco de lado, afinal não daria para fazermos as turnês enquanto tínhamos uma faculdade para cuidar. Não fizemos cursos tradicionais, já que nem eu nem Bill tínhamos vocação para isso.
Quando voltamos a ativa, éramos mais uma dupla. Nada demais. Esforçamo-nos para conseguir empregos paralelos, que suprissem nossa necessidade de grana. Até que um dia, a gravadora decidiu nos despedir. Meio que já esperávamos por aquilo. Era óbvio que mais cedo ou mais tarde aconteceria.
Utilizamos os nossos diplomas universitários, mas não era tão grande ajuda. Meu emprego como fotógrafa rendia um bom dinheiro, graças as futuras modelos e futuras mães. Queriam tirar o máximo de fotos que pudessem. Bill conseguiu emprego de cantor num pub perto de casa. Nós dois trabalhávamos em coisas que gostávamos e ganhávamos o suficiente pra ir vivendo. Não tínhamos grandes luxos.
Até que um mês, comecei a ficar muito enjoada e quase toda manhã eu vomitava. Não comentei nada com Bill, afinal não queria preocupá-lo. Suspeitei de gravidez. Fiz uns três exames de farmácia e um de laboratório. No dia que eu fui buscar o exame de laboratório, eu estava completamente nervosa. Por que dois dos três exames de farmácia tinham dado positivo               .
Chegando no laboratório, a recepcionista perguntou o meu nome e procurou o meu exame.
“Parabéns, senhora Ajram. A senhora vai ser mãe.”
Fiquei boquiaberta. Agradeci a simpatia da recepcionista e me apressei pra pegar um taxi. Tinha que contar a novidade pra Bill, afinal desde que nos casamos e conseguimos os atuais empregos, nós queríamos muito ter um.
Quando eu cheguei em casa, pronta pra contar a novidade pra Bill, encontrei ele se contorcendo de dor no chão. Corri para socorrê-lo. Liguei pra emergência e implorei por uma ambulância.
Bill começava a soltar urros de dor. Tentei, inutilmente acalmá-lo acariciando seus cabelos. As primeiras lágrimas escorriam pelos meus olhos. Não aguentaria perder o marido tão cedo. Principalmente com uma criança a caminho.
Quando chegamos ao hospital, o médico pediu para que eu esperasse do lado de fora do consultório. Liguei para o irmão de Bill, Basil, que apareceu prontamente para me dar apoio e tentar descobrir notícias do irmão. Demoraram algumas horas até que eu recebesse a noticia de que Bill estava fora de perigo. Logo que soube disso, o irmão de Bill se despediu de mim.
“Senhora Ajram, o seu marido está fora de perigo, mas ele precisará de ajuda e também irá precisar ficar aqui em observação só até amanhã.” Informou o médico
“Doutor, o que o meu marido tem? Preciso saber. Por que estou grávida do nosso primeiro filho…”
“Ele está com um tumor no cérebro. Se a senhora quiser, posso indicar uma enfermeira, já que a senhora não poderá ser totalmente presente.”
“Obrigada.”
O médico me encaminhou até a sala dele. Anotou num papel o nome e o telefone de uma enfermeira. Dali a alguns segundos, outra enfermeira bateu na porta.
“Doutor, o paciente do quarto vinte e sete está pedindo desesperadamente para ver a mulher dele.”
“Já vou levá-la.”
Fui ver Bill. Ele estava com o topo da cabeça enfaixado, abafando seus cabelos cor de palha. Ele parecia fraco e estava mais pálido que o normal. Sentei na beirada da cama, tomando cuidado pra não machucá-lo.
“Amor, tenho uma novidade.” Comecei, alisando seus cabelos
“Diga.”
Peguei a mão dele e pus sobre a minha barriga. Um sorriso radiante brotou no rosto dele. Parecia uma criança que ganhou o melhor presente do mundo.
“Desde quando você sabe? Digo, isso é maravilhoso!” ele não se conteve
“Soube hoje. Mas já suspeitava há algumas semanas. To quase no terceiro mês.”
O sorriso de Bill se alargou ainda mais. Começou um interminável discurso sobre como seria a vinda do nosso filho, se seria menina ou menino… Eu só tinha visto ele animado daquele jeito duas vezes. Que foram na aprovação da audição e quando nos casamos.
Para mim, o que importava naquele momento era como seria a minha vida dali em diante. Eu já não era mais aquela menininha inexperiente e inocente que eu era quando tinha chegado a Londres oito anos antes. Eu era chefe de família com um marido doente para cuidar e uma criança a caminho.
Minha gravidez teve muitos cuidados e foi cheia de risos e alegrias. Quando descobrimos que era um menino, ficamos radiantes. Ríamos das propostas loucas de nomes que nossos amigos davam.
Bill tomava as porções de remédios que o médico recomendou e se consultava regularmente. Sabia que não viveria muito, mas que se tomasse todos os remédios e fizesse todo o tratamento, poderia viver para ver nosso filho nascer.
Por volta de Fevereiro, a minha expectativa crescia cada vez mais, afinal, meu filho estava para nascer e a vida do meu marido estava perto do fim. Morria de vontade de conhecer aquele pequeno menino que crescia dentro de mim…
Dia 25 de Fevereiro, eu jamais poderia esquecer. De manhã cedo, eu e Bill fomos para uma padaria perto de casa para que pudéssemos tomar café-da-manhã e dali sairmos para fazer algum passeio que meu corpo permitisse. Quando terminei de tomar café, me lembrei que tinha esquecido minha bolsa em casa e implorei pra Bill para que passássemos lá para pegá-la antes de sairmos.
Assim que eu pus meus pés em casa, a bolsa estourou. Olhei assustada para Bill e fomos às pressas para o hospital. Por mais estranho que isso pareça, não senti aquela famosa dor que se diz ter no parto. Acabou sendo relativamente fácil. Cansativo, claro, mas fácil.­­­­­
Bill me ajudou muito nos primeiros meses. Foi um ótimo pai e eu não tinha do que reclamar. Ele estava ajudando com o nosso filho, o Gregory e estava se cuidando. Por mais que Bill já fosse adulto e tudo mais, eu não deixava de me preocupar. Dali a pouco ele morreria. Quando recebemos do médico a previsão de vida dele, tratamos de fazer de tudo para que Gregory não percebesse a falta do pai.
Poucos dias depois, quando eu estava me arrumando pra levar Greg pra um passeio, o telefone tocou.
“Alô?” falei em inglês
“Alô, Melissa tá aí?” perguntou Daniel, meu padrasto, num inglês horrível. Quase não o reconheci. Sua voz não estava embargada por suas bebidas. Parecia até que ele estava chorando.
“Daniel? O que está acontecendo? Nem você nem a minha mãe me ligaram em todos esses anos.” Perguntei em português
“Melissa, Santana...” ele fungou alto “Aconteceu uma coisa terrível com ela”
O som do nome da minha mãe me deu arrepios. Como as pessoas sempre se referiam à minha mãe como ‘sua mãe’, eu sempre associei o som do nome dela à problema.
“O que aconteceu com a minha mãe, Daniel? To começando a ficar com medo.”
“Juro que não foi culpa minha, Melissa. Eu fiz o que pude pra salvar ela. Você não sabe o que ela significa pra mim. E agora...” outra sonora fungada “Ela se foi.”
                “Eu não vou te dizer o quanto ela significava pra mim e o que eu penso sobre o que você fez com ela. Mas eu realmente espero que você aprenda alguma coisa com isso. Prometo que eu vou pro funeral e pro enterro. Agora eu tenho que cuidar do meu filho.”
Desliguei o telefone para deixar as primeiras lágrimas escorrerem. Eu realmente sentia saudades da minha mãe e sentia pela sua morte. E apesar de odiar meu padrasto, tive que reconhecer que ele a amava de seu jeito torto, inconsequente e egoísta. No momento em que meu choro fez-se soar pela casa, Bill apareceu pra me abraçar.
“Mel, meu amor, o que aconteceu?” ele perguntou
“Minha mãe...” foi tudo o que consegui falar
Ele me abraçou mais forte como se pra me proteger de alguma coisa. Ele prometeu que pagaria a minha passagem pro Brasil pra dar um último adeus à minha mãe e que ele ficaria com o Greg no meio tempo.
Voltei pra minha cidade natal e participei do enterro e do funeral. Fiquei até o dia da missa de sétimo dia. Depois de tudo isso, voltei pra Londres, temendo que Bill morresse logo. Alguns meses depois do primeiro aniversário do Gregory, num fim de semana, eu cheguei em casa esperando ver meu marido pronto para mais uma rodada de brincadeiras infantis e risadas com o nosso filho. Mas o que eu vejo ao abrir a porta é Bill se contorcendo e urrando de dor. Em nenhum momento da doença ele se contorcera ou urrara tanto de dor.
Com algumas lágrimas silenciosas no rosto e o corpo inteiro tremendo, liguei pra emergência. Quando eu me ajoelhei perto de Bill, Greg pulou dos meus braços e foi em direção ao colo do pai. Greg deu seus passos ainda hesitantes e começou a fazer um carinho desajeitado no rosto do pai.
No hospital, eu pude dar um suspiro de tranquilidade por alguns pouco instantes. Bill tinha sido internado na UTI pelo estado avançado de câncer e tinha tido uma melhora leve. Algumas semanas depois, durante uma das minhas visitas – que acabou sendo a última – Bill já começava a fazer planos para quando saísse do hospital.
“Amor, assim que eu sair daqui, a gente vai levar o nosso pequeno pro Brasil.” Ele disse
“Bill, não se empolgue muito. Você ainda não está bem.”
“Mas eu me sinto ótimo”
E assim ele insistia.
Tentei conter o entusiasmo dele, sem muito sucesso. Greg assistia toda a cena e repetia uma ou outra palavra. De repente, Greg começou a se remexer no meu colo para ficar no de Bill. Bill fez menção de que poderia ter a companhia do filho na cama junto com ele. Olhei admirada para a cena dos dois juntos. Com a voz meio fraca, Bill pediu para que eu tirasse uma foto dos dois. Assim que eu tirei a foto, Greg se virou para o pai e disse um sonoro ‘eu te amo’ em sua voz infantil.
Poucos minutos depois, soou o barulho de uma das máquinas. Máquina que, outrora estivera fazendo barulhos repetitivos, agora estava num apito constante. Rapidamente soei o alarme chamando a enfermeira. Greg olhava atordoado para todos os lados e começou a chorar. Peguei ele no colo e comecei a repetir que estava tudo bem. Não tenho certeza se aquele mantra improvisado era para me convencer ou para confortá-lo.
Com a morte de Bill, fiquei com medo de não aguentar ver Greg, já que ele era muito parecido com o pai, mas consegui superar a dor da perda e olhar para o meu filho sem ficar triste ou chateada. E, realmente, Greg, a cada dia que passa, fica mais parecido com o pai, em vários aspectos e me deixa cada vez orgulhosa.
O que eu quero passar contando essa historia é que:
  • · Nem todos os sonhos, quando realizados vão realmente durar. Principalmente os que vêm fáceis demais.
  • · Não passe por cima da sua família por um sonho. Depois você pode se arrepender.
  • ·  Na maioria dos casos, as aparências enganam. Se eu não tivesse acreditado naquele garoto “esquisito”, eu não teria me tornado o que me tornei.

Agradeço a sua atenção.
Melissa Ajram

2 comments:

  1. Por que o apelido do William é Bill? No mais, adorei a estória (vi na Escritor da Depressão).

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    1. Em inglês, Williams (de uma forma geral) têm dois apelidos: Will e Bill. Por isso o apelido do William da história é Bill

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