Eu nasci numa situação meio
estranha. Minha mãe tinha acabado de ser largada pelo namorado (meu pai, pelo
que me foi contado) e a família dela a obrigou a trabalhar.
Cresci nesse meio.
Quando comecei a ir pra escola,
tive que frequentar escolas públicas, já que o salário de secretária da minha
mãe não dava conta. Antes de terminar a 1ª série, minha avó determinou que a
minha educação tinha que ter um cuidado maior e, a partir da 2ª série, comecei a
estudar na escola particular ao lado de onde eu morava.
No dia em que a minha avó
morreu, minha mãe se desesperou. Mas a minha avó tinha pensado em tudo
(acredito eu) e fez com que, mesmo após a sua morte, fosse depositado na conta
da minha mãe o valor da mensalidade.
Durante toda a minha vida,
minha mãe teve vários namorados. A maioria foi “espantada” pela minha presença.
Mas quando eu completei 14 anos, ela trouxe pra casa um namorado que vivia bêbado
e drogado, além de viver maltratando ela.
Quando essa história aconteceu,
eu tinha uns 16 anos e era uma garota inconsequente como outra qualquer. Se não
fosse por aquele mês, eu estaria numa vizinhança que me viu crescer e
que me deixava deprimida e infeliz.
No primeiro dia de aula daquele
ano, fui pra escola a contragosto, pois não queria ver aqueles pentelhos
infernais e as garotinhas histéricas se reencontrando após dois longos meses de
separação. O dia seria patético, se não fosse por aquele garoto novo.
Ele andava esquisito, parecia que
estava andando fazia meses. Seu cabelo cor de palha e suas roupas
velhas e grandes para o seu tamanho não lhe ajudavam. Ele lançava um olhar
nervoso ao seu redor. Quando seu rosto magro e pálido se virou para mim, senti
um arrepio. Aquele garoto parecia anêmico ou algo do tipo.
Não era de se estranhar que todos
os outros alunos o encarassem. Ele era novato, estranho e esquisito. E ninguém
queria manchar a própria reputação ao lado do esquisito. Como eu já tinha uma
reputação desgraçada sendo a maconheira delinquente, fui atrás do novato.
Quando me aproximei dele, ele entrou no prédio do colégio. Fui o seguindo até
que eu o alcancei. O seu cheiro era bom. De certa forma era estranho e
altamente familiar.
Quando eu encostei a minha mão no
ombro dele, ele quase pulou de susto e começou a xingar numa língua que eu
aprendi a reconhecer como árabe.
“Desculpa, não quis te assustar.”
Falei “Meu nome é Melissa. Bem vindo a…”
“Sou William.” Ele me cortou “Não
precisa me dar as boas vindas. Eu já percebi que nessa escola é preciso ser
bonito e fútil pra fazer amigos.” Respondeu o garoto de maneira seca
“Bem, não é bem assim. Eu detesto
essa galera” apontei pro lado de fora “E eu quero ser sua amiga, e não acho que você seja
fútil, mas te achei bonito.”
“Não quero uma amizade por pena.
Já tive que me mudar por causa disso. Não quero repetir a minha vida da outra
cidade aqui.”
Ele saiu andando em direção à
secretaria. Arrepiei-me de novo. Ele conseguia me assustar. E eu nem conhecia
ele direito. Intriguei-me.
“William, não quero ser sua amiga
por pena. Falando sério. Eu não tenho amigos nessa escola. Eu sei como é ruim
não ter amigos. Estudo aqui desde que eu tinha 8 anos de idade. Se fosse por
pena, você acha que eu te ofereceria amizade? Você tem que me conhecer. Odeio
amizade por pena.”
“Ok, Melissa. Entendi o recado.
Vamos andando que eu ainda tenho que pegar meu horário e descobrir em que merda
de sala eu estou.”
Andamos até a coordenação. Como
em todos os anos, vinha aquela chatice de ‘como você passou as férias,
Melissinha?’ ‘você está linda ’ das funcionárias mais antigas que sempre me
viam depois de uma briga com uma das histéricas da turma. Elas me olharam com
ares de risos quando me viram entrando com Bill. Afinal de contas, até elas
sabiam que eu não tinha amigos na escola. Dava pra perceber os cochichos e
boatos que rolariam lá no colégio durante os próximos dias.
Eu sei que é meio triste não
ter amigos e ser vista como uma delinquente. Mas a culpa não era propriamente minha
se na minha turma só tinha patricinhas histéricas e mauricinhos metidos a
besta. E burros. Muito, já que não entendiam meia dúzia de palavras
sarcásticas. Nem faziam nada da vida. A maioria é filhinho de papai que tem
tudo na mão e os pais são ricos. E não escutam música boa. Só aqueles pagodes e
bregas horrorosos.
“Melissinha, meu amor, vai
querer alguma coisa? Ainda tem o seu horário?” perguntou Jamile, uma senhora
muito simpática, mas muito fofoqueira da coordenação.
“Ainda tenho meu horário. Minha
mãe não me deixaria perder.” Respondi com um tanto de mau humor “Só to
acompanhando o gringo, mesmo.”
Tá certo, eu não comentei
antes, mas Bill tem realmente cara de gringo, sotaque, roupa de estrangeiro,
enfim, era gringo. E não adiantava ele fingir que não era, por que o meu faro
sempre acertou. Melissa Andrade nunca falhou. Aquele perfume que ele tava
usando, não era vendido por um preço muito baixo. E brasileiros nunca usam
roupas feito aquelas pra ir pro colégio.
Eu e Bill saímos da coordenação
e ficamos no pátio até tocar o segundo sinal que nos obriga a entrar em sala.
“Qual a tua sala?” perguntei,
tentando ser amistosa
“607. E que fique claro: de
onde eu venho, aquela cena” ele apontou pras patricinhas histéricas se
abraçando falsamente “é motivo de vergonha. Já to vendo que vou me dar mal com
esse povo.”
“Ainda te restam dúvidas? Eu
estudo nessa merda desde os meus 8 anos de idade, nunca fiz um amigo e já saí
na porrada com pelo menos três garotas dessas. E de onde você veio, hein? Por
que você só fala que ‘de onde eu venho isso’ ‘de onde eu venho aquilo’…”
“Você não quer saber de
verdade. Muita gente me abandonou por eu ser de onde eu venho.”
“Desculpa, mas eu não me
enquadro nessa lista. Nunca rejeitei ninguém por ser de lugar nenhum. Mas já
rejeitei um bocado de gente pela personalidade.”
“Beirute. Não espalha, tá? Já é
ruim o suficiente ter fugido de babacas preconceituosos por lá pra ter que
fugir daqui por causa desses idiotas.”
“Pra quem eu iria espalhar? Pra
minha mão?” levantei e olhei pra ela “É, acho que não. Como eu disse, eu não
tenho amigos por aqui. Eu não teria a quem contar isso.”
Pra falar a verdade, eu
aceitaria esse cara mesmo se ele fosse filho de Hitler. Ele é mais gato do que
qualquer babaca desse colégio. E me pareceu ser interessante desde o começo. E
ignorar o garoto só porque ele é libanês? Fala sério! Isso se chama burrice e
eu não sou, nem nunca fui adepta desse tipo de coisa.
Além do mais, quem excluiu ele
pela aparência naquele primeiro dia de aula, não tinha nem noção do que poderia
acontecer. E por incrível que pareça, nem eu. Só achava que era um amigo, um
único amigo pra dizer que era minha dupla. Mas ele se tornou muito mais do que
só uma dupla. Muito mais do que um mero amigo. O que era pra ser o preparatório
para o terror do terceiro ano se resumiu a dois ou três meses ridículos de
aulas mal assistidas e ensaios enlouquecedores.
As aulas daquela segunda-feira
se tornaram mero borrão na minha memória. Tudo que consigo lembrar era da
dificuldade que Bill tinha em pronunciar algumas palavras. Nos momentos em que
os professores o mandavam se apresentar ele enrolava e dava uma desculpa
qualquer para não se apresentar em voz alta na frente da turma. De início eu
pensei que era timidez, mas ao longo daquela semana descobri que era apenas uma
forma de não chamar atenção.
Na semana seguinte, eu já tinha
me tornado melhor amiga dele. Contamos tudo sobre as nossas vidas. Sabíamos de
tudo um sobre o outro. Local de nascimento, cidades por onde havíamos passado,
escolas onde havíamos estudado e tudo mais.
Um dia qualquer ele me chamou
pra ir pra casa dele. Logo que ele me chamou eu fiquei meio chocada, já que ele
ainda tinha alguns hábitos muito... como dizer... “certinhos”. Por exemplo, ele
nunca sentava numa cadeira ou banco que uma menina tivesse sentado. Mas aceitei
e fui. O irmão dele, Basil, fez uma pegadinha logo que eu cheguei, mas durante
o resto da tarde foi muito gente boa.
Algumas semanas depois, ele me
perguntou se eu ainda praticava piano. Eu disse que, obviamente, não tinha
desistido do piano, já que o piano se tornara minha única forma de consolo e de
tranquilidade. Ele também me perguntou se eu não aceitaria tocar por dinheiro,
principalmente por que pianistas profissionais ganhavam muito. Não consegui
responder, por que nunca tinha pensado em tocar por dinheiro.
Lembro-me de ter passado o dia
inteiro pensado no que Bill tinha me perguntado. Não entendia porque ele teria
interesse no piano. O interesse dele era praticamente todo pro rock clássico. E
só umas poucas músicas tinham piano. E menos ainda tinham solos de piano.
No dia seguinte, ele insistiu
em ir comigo até em casa para me ouvir tocar. Estranhei o pedido, mas aceitei.
O dia tinha sido estressante com todas aquelas perguntas idiotas de: ‘você e o
William estão namorando?’ ‘o que você viu no William? Ele não é tão atraente.
’. Decidi que eu merecia uma rodada de piano, mesmo que com plateia. E Bill
também merecia. Como eu morava literalmente do lado do colégio, chegamos num
instante. Joguei minha mochila no sofá e disse pra ele fazer o mesmo, já que a
minha mãe não estaria e casa antes das 7 da noite.
Fomos até a sala do piano.
Peguei aquelas minhas partituras preferidas que eu estava decorando. Toquei por
uns 15 minutos, até que eu achei que Bill estava dormindo. Espantei-me quando o
vi de boca aberta e de olhos arregalados me encarando. De início achei que ele
não tinha gostado. Afinal, eu tinha começado ano anterior, e ainda estava
tocando pelas partituras, mas quando ele decidiu falar, ele disse que tinha
sido fantástico e não esperava que eu, de tantas pessoas, tocasse daquela
forma. E ele só tinha me pedido para tocar pra ele porque ele estava atrás de
alguém que soubesse tocar e que pudesse formar uma dupla com ele.
Para mim, aquela proposta
parecia irreal. Principalmente porque era um cara que eu tinha acabado de
conhecer. Aceitei, mas disse que aquilo seria temporário. A ideia de uma dupla,
com ele, naquele momento, parecia completamente surreal. Nunca fui do tipo de
pessoa que iria despertar a atenção das pessoas num ambiente lotado.
Bill começou a me agradecer
repetidamente por ter aceitado o pedido pra formar a dupla. Respondi que não
era nada, que aquilo me deixaria um pouco mais feliz. De repente eu tive a nada
brilhante ideia de irmos até a padaria da rua para comprarmos doces. O dia
estava nublado e estávamos equipados só com casacos de moletom. Chegamos na
padaria e compramos tudo que tínhamos direito. Quando fomos voltar para casa,
começou a chover. Fomos correndo que nem dois retardados. Mas não ligamos.
Chegamos em casa ensopados.
Ríamos como duas crianças.
Imediatamente ofereci roupas secas. Prometi que daria calças e camisetas que
podiam servir nele e que não ficariam com cara de viado. Ele riu, achando
engraçado, até perceber que eu estava falando sério. Deixei-o tomar banho e
peguei uma camisa e uma calça seca. Roupas tais que eram do meu “padrasto”.
“Melissa, você tem algum
apelido que você goste de ser chamada?” Bill me perguntou do nada
“Bem, a louca da minha mãe me
chama de Missy, mas não sou muito fã desse apelido. Prefiro ser chamada de Mel,
mesmo.” Respondi, entregando as roupas secas e pegando as molhadas.
Fui estender as roupas molhadas
enquanto Bill se vestia. Ele se tornara o amigo que eu precisava. Depois dele
eu consegui ser um pouco feliz, sentir vontade de sair de casa.
Quando eu voltei, ele parecia
um menino pequeno e perdido. Não pude deixar de reparar que ele tava muito gato
daquela maneira. Ele não me forçou a nada, me respeitou o tempo todo.
Aproximei-me dele pra ajeitar o seu cabelo. A gente ficou com os rostos
próximos e quase encostados. Só estávamos separados por alguns centímetros.
Meses de amizade forte e
intensa cultivados resultaram numa tensão entre nós dois. Respirávamos
ofegantes. Os rostos quase colados nos deixavam com vontade de nos beijarmos.
Bill tomou a iniciativa. Abraçou-me pela cintura, de uma maneira firme e forte.
Ele me beijou ardentemente e eu correspondi. Isso me deixou com vontade de ir
pra cama com ele. Íamos nos aprofundando e tirando a roupa. Não ligávamos para
o tempo.
Guiei-o até o meu quarto. Dava
pra perceber que ele queria. Ele me jogou na cama e subiu por cima de mim. Ele
começou a me penetrar. De primeira doeu. Parecia que uma faca ia me cortando.
Não me assustei. Sabia que aquilo era um novo passo na minha vida. Eu estava
perdendo a minha virgindade para um cara que eu conhecia havia alguns poucos
meses. Mas não liguei. Em momento nenhum liguei.
Bill foi muito gentil comigo.
Começou a acelerar. Foi ficando mais forte e melhor. E eu não conseguia me
segurar. Ia ficando difícil de não gemer. Eu gemia. Alto. E cada vez que ele me
penetrava, o prazer foi substituindo a dor. Ele se mostrou cada vez mais
entusiasmado. Sussurrava palavras doces no meu ouvido. Chegou um momento que
ele pediu para que eu ficasse em cima. Fiquei. Eu podia estar perdendo a virgindade
naquele momento, mas eu sabia muito bem de posições. E entendia o que Bill
queria. Passei alguns minutos cavalgando.
Ele gemia. E eu ia fazendo mais
rápido. Terminamos nos beijando e eu deitei sobre o seu torso nu. Ele olhou pra
mim de um jeito que eu não tinha visto antes.
“Melissa, você já namorou
antes?” ele perguntou
“Bem, não. Nem tive interesse
em ninguém. Aquela escola não oferece muita opção de gente decente. Ou melhor,
você foi a única pessoa decente que apareceu por lá até hoje.”
“Então quer dizer que sou o
primeiro cara pelo qual você se apaixona?”
“Basicamente isso”
“Quer namorar comigo?”
“Você ainda pergunta?” dei um
beijo longo nele.
Apoiei a minha cabeça no peito
dele.
“Obrigado por ter aparecido na
minha vida” ele falou
Acabamos cochilando ali, nus e
felizes. De repente eu acordo com um grito. Era a minha mãe que tinha acabado
de chegar com seu namorado drogado e me viu naquela cena com Bill.
“Mãe, eu posso explicar.”
“Melissa Andrade, eu não
esperava isso vindo de você.”
“Mãe, escuta.”
Minha mãe não escutava. Falava,
falava muito. Reclamava que eu não devia ter transado ali com um desconhecido.
“Agora você vai me escutar, Santana.
Primeiro: William não é desconhecido. Ele é o meu namorado. Segundo, se você
não percebeu, o garoto está aqui. A não ser que você queira manter uma imagem
de louca histérica, cale a boca e só fale quando for pra se desculpar.”
“Melissa, eu sou a sua mãe!
Tudo o que eu faço é para o seu bem!”
“E é para o meu bem ter esse
drogado que você chama de namorado como padrasto? É para o meu bem eu não saber
quem é o meu pai? Pra mim chega, mãe.”
“Não fale assim do seu
padrasto! E fale direito comigo! Eu sou a sua mãe!”
“Uma mãe irresponsável que
deixa qualquer imbecil vir até aqui em casa te bater não pode vir me exigir
respeito. Se quiser respeito, se respeite.”
Ela bateu a porta entre nós.
Sim, na maioria das vezes eu
era a mãe e ela a filha. Ela trabalhava, mas quem gerenciava a grana era eu. De
vez em quando, como naquele dia, eu me dava um luxo. Mas a minha mãe exagerava
nas coisas. Quando eu fiz a tatuagem que carrego nas costas, ela deu um piti.
Eu odiava quando ela fazia aquilo.
O gesto da porta batida na
minha frente me persegue até hoje. Isso mudou muito o meu relacionamento com a
minha mãe. Eu sabia que havia a magoado, mas eu nunca soube lidar nem me
expressar sobre esse tipo de frustração.
Aquele dia me entristeceu
muito, mas também me animou. Eu tinha perdido a minha virgindade para um cara
que sempre me tratou bem. Fui convidada para formar uma dupla com esse mesmo
cara. Mas tive uma briga séria com a minha mãe, o que me custou muito, pois
nunca mais eu voltaria para casa nem teria as suas palavras de consolo quando
estivesse triste.
Depois da cena deplorável entre
eu e a minha mãe, qualquer cara iria se mandar e nunca mais iria querer saber
de mim, não é? Pois bem. Bill não era, nem nunca foi, um cara normal, essa é a
verdade. Ele ficou pra me dar apoio. Propôs-se para justificar para a minha mãe
o que tinha acontecido. Ele foi falar com ela, mas não houve muito avanço
positivo. Ela só fez deixar claro que estava decepcionada com a minha atitude e
que Bill não tinha culpa. A atitude dele me deixou feliz e me serviu de prova
pelo amor dele.
Você deve estar de perguntando:
‘Por que ela ta falando no passado?’ ‘Como assim? Bill a amava e não ama mais?’
O buraco é mais fundo do que se pensa. Se eu to contando essa história para
vocês, eu tenho um motivo. Ouça-a até o fim para entender o que eu quero
transmitir.
Continuando, naquele momento eu
tive a certeza de que eu poderia contar com Bill pro que eu precisasse. Ele
seria o meu fiel escudeiro.
Os dias que se passaram me
mostraram que perseverança e determinação são incrivelmente importantes. As
minhas tardes deixaram de ser aquela preguiça rotineira depois das aulas.
Passaram a ser puxadas, eram ensaios e audições que me deixavam um caco de
noite. Se eu já quase não via a minha mãe antes disso, naqueles dias era que eu
não via mesmo. A minha vida tinha só um sentido: conseguir me aperfeiçoar e
passar em uma audição.
As audições eram basicamente chegar
lá carregando toda a parafernália eletrônica, entrar no estúdio, armar o circo
todo e tocar uma ou duas músicas. Invariavelmente ouvíamos um ‘não’ como
resposta. A única diferença era como o ‘não’ era dito. Mas eu e Bill íamos de
audição em audição para ver se daquela vez seria diferente. Dava pra perceber
que, quanto mais os dias passavam, íamos ficando melhor, mais sincronizados.
A nossa última tentativa foi a
mais esquisita. A audição foi num teatro quase abandonado no centro. Uma boa
quantidade de coisas estava montada no palco. Tinha um piano, instalação
elétrica e amplificadores a disposição dos candidatos.
Na frente do palco, de pé,
estavam três homens. Um estava sério e vestia terno e gravata. Ele gesticulava
muito, mas falava baixo. Sua expressão demonstrava raiva. O rapaz de camiseta e
cabelo loiro ao seu lado tentava acalmá-lo inutilmente. O último homem vestia
uma roupa que era claramente asiática. Ele parecia ser o mais calmo dos três.
De repente, os três pararam de
se encarar e olharam em volta no teatro praticamente deserto. Quando nos viram,
o homem de roupa asiática nos chamou. Fomos até lá. Os homens nos olhavam
seriamente e o jovem de camiseta avisou que eu e Bill éramos os únicos
inscritos na audição, mas não deixariam de nos testar. Ele mandou a gente tocar
uma música que fosse de nossa autoria. Explicamos que não compúnhamos, mas que
tentávamos através de paródias. Então ele disse que queria que tocássemos uma
de nossas paródias.
Subimos no palco, nos ajeitamos
e começamos a tocar. Lembrei-me dos finais de tarde em que fazíamos piadinhas
sobre a escola, das vezes em que soltávamos sarcasmos ácidos cruéis para os
colegas da escola. Não consegui controlar as minhas emoções no final da música.
Comecei a derramar lágrimas silenciosas que, ao som dos últimos acordes da
música, se transformaram em choro. Levantei-me e procurei desesperadamente pelo
banheiro. Sabia que aquela atitude não era nada profissional e que os caras
poderiam me cortar por causa daquilo. Mas não liguei.
Assim que achei o banheiro,
lavei meu rosto, olhei pro espelho e tentei sorrir. Aquela era a Melissa
Andrade que eu julgava a verdadeira. Distante, sem sentimentos aparentes além
de claro desdém.
Quando retornei para a sala do
teatro, vi Bill conversando com os três caras. Eu não via o rosto nem ouvia a
voz de Bill, mas sabia que ele estava falando. Achei que tínhamos reprovado no
teste. Mal sabia eu que aquela conversa era uma confirmação de que a minha vida
jamais seria a mesma. Naquele momento eu também não sabia que dali a três meses
eu abortaria o que seria fruto da minha relação com Bill.
Cheguei ansiosa perto dos
rapazes. Quando cheguei perto, pude perceber que falavam em inglês, e que eles
teriam que cuidar de coisas como visto. Paralisada de emoção, mal percebi o
abraço quente de Bill.
“Amor, você ouviu? Vamos pra
Londres!” ele falou animado. Quando viu que eu não reagia, ficou meio
desesperado. “Melissa, você ta bem? Você tá pálida. O que aconteceu?”
Naquele momento me subiu uma
ânsia de vomito, um enjoo muito forte. O perfume do homem de roupa asiática
estava forte demais. Minhas pernas fraquejaram e cai de joelhos no chão. Ali
mesmo vomitei. Bill me segurava pela cintura, preocupado. Jamais vou esquecer o
terror e o medo nos olhos dele.
Assim que eu terminei de
vomitar, senti um jorro de vergonha me invadir. Na única audição que eu havia
conseguido passar, eu passava por um vexame daquele. Os homens prometeram que
aquilo não seria levado em conta, já que sabiam que era puro nervosismo. Eles
não sabiam o quanto haviam se enganado. Aquilo era um aviso de que uma criança
estaria a caminho.
Se, naquela época, eu soubesse
que eu ficaria grávida de Bill, não teria transado aquele dia. Não que eu ache
que duas pessoas puras tirando a virgindade uma da outra seja uma experiência
ruim. Acho até mais construtiva do que perder a virgindade para alguém que já
não seja. E eu acho que eu deveria ter tomado cuidado aquele dia.
Depois do episódio da audiência
só tive tempo pra ir ao juizado com a minha mãe tirar a minha carta de
alforria. Ou melhor, o documento que dizia que eu era emancipada. Fui
empacotando as minhas coisas, o que eu mais gostava no meu quarto, como
quadros, pôsteres e livros. Além de roupas, claro. Minha cabeça girava. Eu
tinha sido contratada para ser lançamento de uma gravadora estrangeira, o que
me daria a oportunidade de conhecer pelo menos mais um país que não fosse o
meu.
Chegando em Londres depois de
quase um dia inteiro viajando, quase caí de tanta emoção. Era tudo muito mais
bonito do que eu imaginava. Eu ficava olhando feito uma tonta de um lado para o
outro, apontando para tudo que era um pouco diferente da rotina pra mim. Não,
viajar para o exterior não era uma atividade rotineira. Mas, o que era
vagamente diferente de qualquer coisa que eu esperava.
Os dias se passaram, e junto
com eles, a euforia inicial que eu tive. Passei a ter que ensaiar todos os
dias, frequentar a escola pra terminar o ano e ter que cuidar do meu corpo. De
início, estranhei o excesso de enjoos que eu tinha. Pensei que era pela mudança
de clima e de alimentação.
Depois foi aumentando a
frequência e o meu ciclo não vinha. Cogitei a possibilidade de estar grávida,
mas ignorei, pois eu só tinha transado uma vez na minha vida. Quando eu
realmente fui aceitar o fato de estar grávida, já era tarde demais. Eu estava
na ambulância a caminho do hospital em processo de aborto espontâneo.
O que aconteceu com a minha
vida profissional durante esses primeiros meses não foi tão importante.
Consegui conquistar um humilde público nos arredores de Londres e nada muito
além disso. É claro que todo músico quer conquistar uma enorme legião de fãs
enlouquecidos pelo seu som. Mas eu sempre fui realista. Para conquistar meia
dúzia de fãs é difícil e complicado. Quanto mais meio mundo deles.
Depois do aborto, passei a me
prevenir mais, afinal estava em início de carreira e a gravadora disse que não
admitiria se eu aparecesse grávida de novo por lá.
Passamos alguns meses
trabalhando em Hamburgo, Viena, Praga e em Paris. Eu e Bill nos juntamos mais e
mais. A cada dia que passava, a união entre nós só aumentava. Até que um dia,
ele me pediu em casamento. No dia, estávamos em turnê, abrindo os shows de uma
banda maior que a nossa. Estávamos cansados, depois de algumas noites mal
dormidas. Eu lembro perfeitamente de como foi.
Era fim de Dezembro. O café
estava lotado, com pessoas que vinham de todos os lugares da cidade. Com muita
sorte, conseguimos uma mesa perto do aquecedor. Bill se mostrara nervoso desde
que havíamos de saído de casa. Pensava que era por causa dos shows que a gente
tava fazendo. Falamos de amenidades, até que chegamos no assunto família.
Ele me contou que sempre teve
uma família bem-estruturada, até tradicional. Cresceu como filho e neto único,
apesar de ter o irmão. Mas quando os pais deles morreram, eles ficaram sós e
até hoje era assim. Eu expliquei que a minha família era uma loucura. Minha mãe
era mãe solteira, nunca cheguei a conhecer o meu pai por impedimento da minha
mãe e todo esse blá - blá - blá de filha única de mãe solteira. Até que em um
momento em que ele pediu pra que eu contasse como eu pretendia construir a
minha.
Estranhei o pedido dele, afinal
Bill nunca foi de falar de futuro, ele mesmo dizia que futuro era um assunto
vago, que ninguém tinha propriedade pra prever o que iria acontecer. Ele tirou
alguma coisa do bolso e colocou em cima da mesa, mas não tirou a mão de cima.
“Quando eu tirar a minha mão de
cima, quero que você responda a pergunta que eu não vou precisar fazer, eu
acho.”
Assim que tirou a mão de cima
de uma caixa de veludo azul Royal eu entendi tudo. A conversa sobre o futuro,
sobre família… Era na verdade um pretexto para me pedir em casamento.
Por alguns segundos, fiquei sem
saber o que falar. Pra mim, aquela situação era completamente irreal. Eu sempre
tinha baseado a minha vida em trabalho e ralação. Não planejara me casar tão
nova, mas também não esperava que eu estaria onde estava.
Temi que minha vida fosse se
tornar o pé no saco que era a vida da minha mãe. Eu sabia que era difícil ser
mãe solteira, graças à convivência que eu tive com ela. E eu queria dar enfoque
a minha vida profissional. Mas, poxa, eu já tive filho… Aceitei e nos casamos
dali a quatro meses.
Em Junho, recebemos a notícia
de que teríamos que fazer faculdade ou perderíamos o emprego na gravadora.
Ficamos desesperados, afinal nem tínhamos terminado o ensino médio. Tentamos
apelar, justificar que não tínhamos ensino médio completo, e por causa disso
não poderíamos fazer faculdade.
Mandaram-nos para uma escola
que era meio tradicional, perto de onde morávamos. Tinha toda aquela frescura
de garotas de saia e gravata e meninos de terno e gravata. Lá pra Setembro,
começaram as aulas. Pra mim, foi um pesadelo. Por dois motivos. Língua e os
outros alunos. Toda hora eu tava falando português de novo e o povo
simplesmente tirava onda com a minha cara por causa disso. Até que eu descobri
uma forma de tirar essa fase encrenqueira dos alunos.
Tinha o coral do colégio, que
era recheado dos alunos mais populares de toda a escola. Tentei entrar. Nos
testes, todos se impressionaram com a minha atuação no palco e nos bastidores
acalmando meus colegas, que quase desmaiavam de nervosismo. Botaram-me como
solista feminina e um menino que já era aluno veterano como solista masculino.
Os ensaios começaram na semana seguinte e nos transformamos num coral
maravilhoso.
Os outros alunos não
encrencaram tanto comigo. Só alguns que eram mais xenofóbicos, que agiam na
mesma forma com Bill. Passamos de ano direto, ao contrário dos idiotas que
gastavam o tempo deles tirando sarro da nossa cara. Fizemos faculdade e
deixamos a carreira um pouco de lado, afinal não daria para fazermos as turnês
enquanto tínhamos uma faculdade para cuidar. Não fizemos cursos tradicionais,
já que nem eu nem Bill tínhamos vocação para isso.
Quando voltamos a ativa, éramos
mais uma dupla. Nada demais. Esforçamo-nos para conseguir empregos paralelos,
que suprissem nossa necessidade de grana. Até que um dia, a gravadora decidiu
nos despedir. Meio que já esperávamos por aquilo. Era óbvio que mais cedo ou
mais tarde aconteceria.
Utilizamos os nossos diplomas
universitários, mas não era tão grande ajuda. Meu emprego como fotógrafa rendia
um bom dinheiro, graças as futuras modelos e futuras mães. Queriam tirar o
máximo de fotos que pudessem. Bill conseguiu emprego de cantor num pub perto de
casa. Nós dois trabalhávamos em coisas que gostávamos e ganhávamos o suficiente
pra ir vivendo. Não tínhamos grandes luxos.
Até que um mês, comecei a ficar
muito enjoada e quase toda manhã eu vomitava. Não comentei nada com Bill,
afinal não queria preocupá-lo. Suspeitei de gravidez. Fiz uns três exames de
farmácia e um de laboratório. No dia que eu fui buscar o exame de laboratório,
eu estava completamente nervosa. Por que dois dos três exames de farmácia
tinham dado positivo .
Chegando no laboratório, a
recepcionista perguntou o meu nome e procurou o meu exame.
“Parabéns, senhora Ajram. A
senhora vai ser mãe.”
Fiquei boquiaberta. Agradeci a
simpatia da recepcionista e me apressei pra pegar um taxi. Tinha que contar a
novidade pra Bill, afinal desde que nos casamos e conseguimos os atuais
empregos, nós queríamos muito ter um.
Quando eu cheguei em casa,
pronta pra contar a novidade pra Bill, encontrei ele se contorcendo de dor no
chão. Corri para socorrê-lo. Liguei pra emergência e implorei por uma
ambulância.
Bill começava a soltar urros de
dor. Tentei, inutilmente acalmá-lo acariciando seus cabelos. As primeiras
lágrimas escorriam pelos meus olhos. Não aguentaria perder o marido tão cedo.
Principalmente com uma criança a caminho.
Quando chegamos ao hospital, o
médico pediu para que eu esperasse do lado de fora do consultório. Liguei para
o irmão de Bill, Basil, que apareceu prontamente para me dar apoio e tentar
descobrir notícias do irmão. Demoraram algumas horas até que eu recebesse a
noticia de que Bill estava fora de perigo. Logo que soube disso, o irmão de
Bill se despediu de mim.
“Senhora Ajram, o seu marido
está fora de perigo, mas ele precisará de ajuda e também irá precisar ficar
aqui em observação só até amanhã.” Informou o médico
“Doutor, o que o meu marido
tem? Preciso saber. Por que estou grávida do nosso primeiro filho…”
“Ele está com um tumor no
cérebro. Se a senhora quiser, posso indicar uma enfermeira, já que a senhora
não poderá ser totalmente presente.”
“Obrigada.”
O médico me encaminhou até a
sala dele. Anotou num papel o nome e o telefone de uma enfermeira. Dali a
alguns segundos, outra enfermeira bateu na porta.
“Doutor, o paciente do quarto
vinte e sete está pedindo desesperadamente para ver a mulher dele.”
“Já vou levá-la.”
Fui ver Bill. Ele estava com o
topo da cabeça enfaixado, abafando seus cabelos cor de palha. Ele parecia fraco
e estava mais pálido que o normal. Sentei na beirada da cama, tomando cuidado
pra não machucá-lo.
“Amor, tenho uma novidade.”
Comecei, alisando seus cabelos
“Diga.”
Peguei a mão dele e pus sobre a
minha barriga. Um sorriso radiante brotou no rosto dele. Parecia uma criança
que ganhou o melhor presente do mundo.
“Desde quando você sabe? Digo,
isso é maravilhoso!” ele não se conteve
“Soube hoje. Mas já suspeitava
há algumas semanas. To quase no terceiro mês.”
O sorriso de Bill se alargou
ainda mais. Começou um interminável discurso sobre como seria a vinda do nosso
filho, se seria menina ou menino… Eu só tinha visto ele animado daquele jeito
duas vezes. Que foram na aprovação da audição e quando nos casamos.
Para mim, o que importava
naquele momento era como seria a minha vida dali em diante. Eu já não era mais
aquela menininha inexperiente e inocente que eu era quando tinha chegado a
Londres oito anos antes. Eu era chefe de família com um marido doente para cuidar
e uma criança a caminho.
Minha gravidez teve muitos
cuidados e foi cheia de risos e alegrias. Quando descobrimos que era um menino,
ficamos radiantes. Ríamos das propostas loucas de nomes que nossos amigos
davam.
Bill tomava as porções de
remédios que o médico recomendou e se consultava regularmente. Sabia que não
viveria muito, mas que se tomasse todos os remédios e fizesse todo o
tratamento, poderia viver para ver nosso filho nascer.
Por volta de Fevereiro, a minha
expectativa crescia cada vez mais, afinal, meu filho estava para nascer e a
vida do meu marido estava perto do fim. Morria de vontade de conhecer aquele
pequeno menino que crescia dentro de mim…
Dia 25 de Fevereiro, eu jamais
poderia esquecer. De manhã cedo, eu e Bill fomos para uma padaria perto de casa
para que pudéssemos tomar café-da-manhã e dali sairmos para fazer algum passeio
que meu corpo permitisse. Quando terminei de tomar café, me lembrei que tinha
esquecido minha bolsa em casa e implorei pra Bill para que passássemos lá para
pegá-la antes de sairmos.
Assim que eu pus meus pés em
casa, a bolsa estourou. Olhei assustada para Bill e fomos às pressas para o
hospital. Por mais estranho que isso pareça, não senti aquela famosa dor que se
diz ter no parto. Acabou sendo relativamente fácil. Cansativo, claro, mas
fácil.
Bill me ajudou muito nos
primeiros meses. Foi um ótimo pai e eu não tinha do que reclamar. Ele estava
ajudando com o nosso filho, o Gregory e estava se cuidando. Por mais que Bill
já fosse adulto e tudo mais, eu não deixava de me preocupar. Dali a pouco ele
morreria. Quando recebemos do médico a previsão de vida dele, tratamos de fazer
de tudo para que Gregory não percebesse a falta do pai.
Poucos dias depois, quando eu
estava me arrumando pra levar Greg pra um passeio, o telefone tocou.
“Alô?” falei em inglês
“Alô, Melissa tá aí?” perguntou
Daniel, meu padrasto, num inglês horrível. Quase não o reconheci. Sua voz não
estava embargada por suas bebidas. Parecia até que ele estava chorando.
“Daniel? O que está
acontecendo? Nem você nem a minha mãe me ligaram em todos esses anos.”
Perguntei em português
“Melissa, Santana...” ele
fungou alto “Aconteceu uma coisa terrível com ela”
O som do nome da minha mãe me
deu arrepios. Como as pessoas sempre se referiam à minha mãe como ‘sua mãe’, eu
sempre associei o som do nome dela à problema.
“O que aconteceu com a minha
mãe, Daniel? To começando a ficar com medo.”
“Juro que não foi culpa minha,
Melissa. Eu fiz o que pude pra salvar ela. Você não sabe o que ela significa
pra mim. E agora...” outra sonora fungada “Ela se foi.”
“Eu não vou te dizer o quanto ela
significava pra mim e o que eu penso sobre o que você fez com ela. Mas eu
realmente espero que você aprenda alguma coisa com isso. Prometo que eu vou pro
funeral e pro enterro. Agora eu tenho que cuidar do meu filho.”
Desliguei o telefone para deixar
as primeiras lágrimas escorrerem. Eu realmente sentia saudades da minha mãe e
sentia pela sua morte. E apesar de odiar meu padrasto, tive que reconhecer que
ele a amava de seu jeito torto, inconsequente e egoísta. No momento em que meu
choro fez-se soar pela casa, Bill apareceu pra me abraçar.
“Mel, meu amor, o que aconteceu?”
ele perguntou
“Minha mãe...” foi tudo o que
consegui falar
Ele me abraçou mais forte como se
pra me proteger de alguma coisa. Ele prometeu que pagaria a minha passagem pro
Brasil pra dar um último adeus à minha mãe e que ele ficaria com o Greg no meio
tempo.
Voltei pra minha cidade natal e
participei do enterro e do funeral. Fiquei até o dia da missa de sétimo dia.
Depois de tudo isso, voltei pra Londres, temendo que Bill morresse logo. Alguns
meses depois do primeiro aniversário do Gregory, num fim de semana, eu cheguei
em casa esperando ver meu marido pronto para mais uma rodada de brincadeiras
infantis e risadas com o nosso filho. Mas o que eu vejo ao abrir a porta é Bill
se contorcendo e urrando de dor. Em nenhum momento da doença ele se contorcera
ou urrara tanto de dor.
Com algumas lágrimas
silenciosas no rosto e o corpo inteiro tremendo, liguei pra emergência. Quando
eu me ajoelhei perto de Bill, Greg pulou dos meus braços e foi em direção ao
colo do pai. Greg deu seus passos ainda hesitantes e começou a fazer um carinho
desajeitado no rosto do pai.
No hospital, eu pude dar um
suspiro de tranquilidade por alguns pouco instantes. Bill tinha sido internado
na UTI pelo estado avançado de câncer e tinha tido uma melhora leve. Algumas
semanas depois, durante uma das minhas visitas – que acabou sendo a última –
Bill já começava a fazer planos para quando saísse do hospital.
“Amor, assim que eu sair daqui,
a gente vai levar o nosso pequeno pro Brasil.” Ele disse
“Bill, não se empolgue muito.
Você ainda não está bem.”
“Mas eu me sinto ótimo”
E assim ele insistia.
Tentei conter o entusiasmo
dele, sem muito sucesso. Greg assistia toda a cena e repetia uma ou outra
palavra. De repente, Greg começou a se remexer no meu colo para ficar no de
Bill. Bill fez menção de que poderia ter a companhia do filho na cama junto com
ele. Olhei admirada para a cena dos dois juntos. Com a voz meio fraca, Bill pediu
para que eu tirasse uma foto dos dois. Assim que eu tirei a foto, Greg se virou
para o pai e disse um sonoro ‘eu te amo’ em sua voz infantil.
Poucos minutos depois, soou o
barulho de uma das máquinas. Máquina que, outrora estivera fazendo barulhos repetitivos,
agora estava num apito constante. Rapidamente soei o alarme chamando a
enfermeira. Greg olhava atordoado para todos os lados e começou a chorar.
Peguei ele no colo e comecei a repetir que estava tudo bem. Não tenho certeza
se aquele mantra improvisado era para me convencer ou para confortá-lo.
Com a morte de Bill, fiquei com
medo de não aguentar ver Greg, já que ele era muito parecido com o pai, mas
consegui superar a dor da perda e olhar para o meu filho sem ficar triste ou
chateada. E, realmente, Greg, a cada dia que passa, fica mais parecido com o
pai, em vários aspectos e me deixa cada vez orgulhosa.
O que eu quero passar contando essa historia é
que:
- · Nem todos os sonhos, quando realizados vão realmente durar. Principalmente os que vêm fáceis demais.
- · Não passe por cima da sua família por um sonho. Depois você pode se arrepender.
- · Na maioria dos casos, as aparências enganam. Se eu não tivesse acreditado naquele garoto “esquisito”, eu não teria me tornado o que me tornei.
Agradeço a sua atenção.
Melissa Ajram
Por que o apelido do William é Bill? No mais, adorei a estória (vi na Escritor da Depressão).
ReplyDeleteEm inglês, Williams (de uma forma geral) têm dois apelidos: Will e Bill. Por isso o apelido do William da história é Bill
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